CAPA
LUIS FERNANDO VERISSIMO
EM ALGUM LUGAR DO PARASO
OBJETIVA

CONTRACAPA
O tempo no foi a nica novidade trazida por Eva ao jardim do Paraso. Foi ela que, dias depois, colheu o fruto proibido, que os tornou, de uma s mordida, sexuais
e mortais. E foi depois de comer o fruto proibido, quando a Terra entrou na sombra da noite e os dois se deitaram lado a lado, que Ado sentiu seu membro, que ele
pensara que fosse s para fazer xixi, se mexer. E avisou  Eva:
  melhor chegar para trs porque eu no sei at onde este negcio cresce.
Das nossas fantasias sobre o primeiro homem at a angstia sobre a passagem incontornvel do tempo, Verissimo nos faz rir com seu humor refinado e uma tremenda elegncia
narrativa.  o paraso: o talento de um dos mais respeitados escritores brasileiros em crnicas irresistveis sobre o tempo, o amor, as oportunidades perdidas, e
aquelas que talvez ainda possamos alcanar.

ABAS DO LIVRO
Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que poderamos ter sido, pelo medo do futuro  dar-se conta dessa fragilidade, e saber rir deliciosamente de tudo
isso, s com Verissimo.  Aqui ele investiga momentos cruciais das nossas vidas, o comeo e o fim do amor, o desgaste gerado pelo tempo, o acaso que pode fazer tudo
ruir ou acontecer de forma surpreendente.
E se eu tivesse topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito no, dito sim... Verissimo nos faz pensar sobre as escolhas,
as decises precipitadas, as que nunca foram tomadas  sempre com um olhar amoroso, bem-humorado, cmplice de limitaes demasiado humanas.
Feliz era Ado, sentencia, que vivia num eterno presente, num eterno domingo. O que vinha depois da passagem da sombra da noite no era o dia seguinte, era o mesmo
dia, ou at o dia anterior, quem se importava? Ado, sozinho no paraso, era um homem feliz porque era um homem sem datas.

LUIS FERNANDO VERISSIMO nasceu em Porto Alegre, em 1936. Consagrou-se como um dos mais importantes escritores do pas, com um obra vasta  incluindo romances, crnicas,
quadrinhos, infantojuvenir, muitos adaptados para cinema, teatro e TV. Mestre da narrativa curta, assina colunas dirias na imprensa brasileira.

Capa Crama Design Estratgico
Designer Grfico & fotocolagem Srgio Carvalho

EM ALGUM LUGAR DO PARASO

@ 2011 by Luis Fernando Verissimo
Todos os direitos desta edio reservados a Editora Objetiva Ltda.
Rua Cosme Velho, 103
Rio de Janeiro - RJ - CEP: 22241-090
Tel.: (21) 2199-7824
Fax: (21) 2199-7825
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CAPA E PROJETO GRFICO
Crama Design Estratgico
FOTO DO AUTOR Bruno Veiga
EDIO Isa Pessa
PRODUO EDITORIAL Clarisse Cintra
PRODUO GRFICA Marcelo Xavier
COORDENAO DE REVISO Andr Marinho
REVISO Joana Milii, Ana Grilo, Ana Julia Cury
EDITORAO ELETRNICA Abreus System

CIP-BPASIL. CATALOGAO-NA-FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ
V619e
Verissimo, Luis Fernando
Em algum lugar do paraso / Luis Fernando Verissimo. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
il.
198p.
ISBN 978-85-390-0297-9
1. Crnica brasileira. I. Ttulo.
11-5792.
CDD: 869.98
CDU: 821.134.3(81)-8

NDICE
5 | EM ALGUM LUGAR DO PARASO
9 | VERSES
13 | O OLHAR DA TRUTA
17 | VAMOS OS NOSSOS PS
21 | TEMPERATURA AMBIENTE
25 | ANCHOVAS NORUEGUESAS
29 | A TEORIA DO RALO
33 | PATO DONALD
39 | ENTERROS
43 | LNGUA NO OUVIDO
47 | TODA A VIDA
51 | SOLIDO
55 | O QUE CADA UM TEM POR DENTRO
59 | MICROFONE ESCONDIDO
63 | O VERDADEIRO GEORGE CLOONEY
67 | SUFL DE QUEIJO
73 | AS INFLVEIS
77 | EM CAFARNAUM
81 | O FILSOFO E SEU CACHORRO
87 | ESTRANHANDO O ANDR
93 | TUBARO MECNICO
99 | T
103 | A PAIXO DE JORGE
109 | PLESHETTE
113 | O TESTE
119 | A PREGUIA
123 | AT A ESQUINA
127 | TUDO SOBRE SANDRINUA
131 | ESTOU NUMA ILHA DESERTA
135 | A MULHER DO VIZINHO
141 | A ESTRATEGISTA
145 | SUFL DE QUEIJO 2
151 | A REPRESLIA
155 | ESCANHOAR SE OU NAO ESCANHOAR-SE
159 | OS SEIOS DA MARIA ALICE
165 | GRAVANDO
169 | UMA MULHER FANTSTICA
175 | O ANIVERSARIANTE
181 | LIBERDADES
187 | CRER
191 | ENTRA GODOT

Pg 5
EM ALGUM LUGAR DO PARASO

     As datas deveriam nos fixar no tempo como as coordenadas geogrficas nos fixam no espao, mas a analogia no funciona

Pg 7
     O tempo no tem pontos fixos, o tempo  uma sombra que d a volta na Terra. Ou a Terra  que d voltas na sombra. Nossa nica certeza  que ser sempre a mesma 
sombra  o que no  uma certeza,  um terror.
     Na nossa fome de coordenadas no tempo nos convencemos at que dias da semana tm caractersticas. Que uma tera-feira, por exemplo, no serve para nada. Que 
tera  o dia mais sem graa que existe, sem a gravidade de uma segunda  dia de remorso e decises  e o peso da quarta, que centraliza a semana (pelo menos em 
Braslia), ou a concentrao da quinta, ou a frivolidade da sexta. Gostaramos que passar pelos dias fosse como passar por meridianos e paralelos, a evidncia de 
estarmos indo numa direo, no entrando e saindo da mesma sombra. No passando por cada domingo com a ntida impresso de que j estivemos aqui antes.
     J que no h coordenadas e pontos fixos no tempo, contentemo-nos com metforas fceis. O novo milnio se estende como um imenso pergaminho  nossa frente, 
esperando para ser preenchido. Podemos escolher nosso destino, desenhar nossos prprios meridianos e paralelos e provveis novos mundos.  verdade que a passagem 
do tempo no se mede apenas pelo retorno dos domingos, tambm se mede pela degradao orgnica, e que a cada domingo estaremos mais perto daquela outra sombra, a 
que nunca acaba, suspiro e reticncias. Nenhum de ns chegar muito longe no novo milnio. (Minha meta  chegar  Copa do Mundo de 2014, o que vier depois  gratificao.) 
Mas  bom saber que o novo milnio est a, quase inteiro,  nossa espera.
     Nada a ver  ou tudo a ver, sei l  mas feliz era Ado, o primeiro homem. No porque estava no jardim do Paraso, com tudo em volta para saciar sua fome e 
sua sede, mas porque no sabia do tempo e da morte. Vivia num eterno presente, num eterno domingo. O que vinha depois da passagem da sombra da noite no era o dia 
seguinte, era o mesmo dia, ou at o dia anterior, quem se importava? Ado, sozinho no Paraso, era um homem feliz porque era um homem sem datas. Mas quando Deus 
colocou Eva ao lado de Ado, a primeira coisa que ela perguntou, ainda mida da criao, s para puxar assunto, foi:
Que dia  hoje?, e ele sentiu que sua paz terminara. Ele era um homem no tempo. Um homem com um ontem e um amanh, e um futuro estendido  sua frente como um imenso 
pergaminho, esperando para ser preenchido. O tempo

Pg 8
no foi a nica novidade trazida por Eva ao jardim do Paraso. Foi ela que, dias depois, colheu o fruto proibido, que os tornou, de uma s mordida, sexuais e mortais. 
E foi depois de comer o fruto proibido, quando a Terra entrou na sombra da noite e os dois se deitaram lado alado, que Ado sentiu seu membro, que ele pensara que 
fosse s para fazer xixi, se mexer. E avisou a Eva:
  melhor chegar para trs porque eu no sei at onde este negcio cresce.
     Depois de ganhar uma mulher e descobrir o tempo e sua mortalidade, Ado
descobriu seu prprio corpo. Que semana!

Pg 9
VERSES

     Vivemos cercados pelas nossas alternativas, pelo que podamos ter sido.
     Ah, se apenas tivssemos acertado aquele nmero

Pg 11
 (unzinho e eu ganhava a sena acumulada), topado aquele emprego, completado aquele curso, chegado antes, chegado depois, dito sim, dito no, ido para Londrina, casado 
com a Doralice, feito aquele teste...
     Agora mesmo neste bar imaginrio em que estou bebendo para esquecer o que no fiz  alis, o nome do bar  Imaginrio  sentou um cara do meu lado direito e 
se apresentou:
      Eu sou voc, se tivesse feito aquele teste no Botafogo.
     E ele tem mesmo a minha idade e a minha cara. E o mesmo desconsolo.
      Por qu? Sua vida no foi melhor do que a minha?
 Durante um certo tempo, foi. Cheguei a titular. Cheguei  seleo. Fiz um grande contrato. Levava uma grande vida. At que um dia...
      Eu sei, eu sei...  disse algum sentado ao lado dele.
     Olhamos para o intrometido... Tinha a nossa idade e a nossa cara e no parecia mais feliz do que ns. Ele continuou:
 Voc hesitou entre sair e no sair do gol. No saiu, levou o nico gol do jogo, caiu em desgraa, largou o futebol e foi ser um medocre propagandista.
      Como  que voc sabe?
 Eu sou voc, se tivesse sado do gol. No s peguei a bola como me mandei para o ataque com tanta perfeio que fizemos o gol da vitria. Fui considerado o heri 
do jogo. No jogo seguinte, hesitei entre me atirar nos ps de um atacante e no me atirar. Como era um heri, me atirei... Levei um chute na cabea. No pude ser 
mais nada. Nem propagandista. Ganho uma misria do INSS e s fao isto: bebo e me queixo da vida. Se no tivesse ido nos ps do atacante...
      Ele chutaria para fora.
     Quem falou foi o outro ssia nosso, ao lado dele, que em seguida se apresentou.
 Eu sou voc se no tivesse ido naquela bola. No faria diferena. No seria gol. Minha carreira continuou. Fiquei cada vez mais famoso, e agora com fama de sortudo 
tambm. Fui vendido para o futebol europeu, por uma fbula. O primeiro goleiro brasileiro a ir jogar na Europa. Embarquei com festa no Rio...

Pg 12
      E o que aconteceu?  perguntamos os trs em unssono.
      Lembra aquele avio da Varig que caiu na chegada em Paris?
      Voc...
      Morri com 28 anos.
     Bem que tnhamos notado sua palidez.
 Pensando bem, foi melhor no fazer aquele teste no Botafogo...
      E ter levado o chute na cabea...
 Foi melhor  continuou  ter ido fazer o concurso para o servio pblico naquele dia. Ah, se eu tivesse passado...
      Voc deve estar brincando.
     Disse algum sentado a minha esquerda. Tinha a minha cara, mas parecia mais velho e desanimado.
      Quem  voc?
      Eu sou voc, se tivesse entrado para o servio pblico.
     Vi que todas as banquetas do bar  esquerda dele estavam ocupadas por verses de mim no servio pblico, uma mais desiludida do que a outra. As consequncias 
de anos de decises erradas, alianas fracassadas, pequenas traies, promoes negadas e frustrao. Olhei em volta. Eu lotava o bar. Todas as mesas estavam ocupadas 
por minhas alternativas e nenhuma parecia estar contente. Comentei com o barman que, no fim, quem estava com o melhor aspecto, ali, era eu mesmo. O barman fez que 
sim com a cabea, tristemente. S ento notei que ele tambm tinha a minha cara, s com mais rugas.
      Quem  voc?  perguntei.
      Eu sou voc, se tivesse casado com a Doralice.
     E...?
     Ele no respondeu. S fez um sinal, com o dedo virado para baixo.

Pg 13
O OLHAR DA TRUTA

        O homem pediu truta e o garom perguntou se ele no gostaria de escolher uma pessoalmente.
  Como, escolher?

Pg 15
      No nosso viveiro, O senhor pode escolher a truta que quiser.
     Ele no tinha visto o viveiro ao entrar no restaurante. Foi atrs do garom. As trutas davam voltas e voltas dentro do aqurio, como num cortejo. Algumas paravam 
por um instante e ficavam olhando atravs do vidro, depois retomavam o cortejo. E o homem se viu encarando, olho no olho, uma truta que estacionara com a boca encostada 
no vidro  sua frente.
      Essa est bonita...  disse o garom.
 Eu no sabia que se podia escolher. Pensei que elas j estivessem mortas.
 No, nossas trutas so mortas na hora. Da gua direto para a panela.
     A truta continuava parada contra o vidro, olhando para o homem.
      Vai essa, doutor? Ela parece que est pedindo...
     Mas o olhar da truta no era de quem queria ir direto para uma panela. Ela parecia examinar o homem. Parecia estar calculando a possibilidade de um dilogo.
     Estranho, pensou o homem. Nunca tive que tomar uma deciso assim. Decidir um destino, decidir entre a vida e a morte. No era como no supermercado, em que os 
bichos j estavam mortos e a responsabilidade no era sua  pelo menos no diretamente. Voc podia com-los sem remorso. Havia toda uma engrenagem montada para afastar 
voc do remorso. As galinhas vinham j esquartejadas, suas partes acondicionadas em bandejas congeladas, nada mais distante da sua responsabilidade, Os peixes jaziam 
expostos no gelo, com os olhos abertos mas sem vida. Exatamente, olhos de peixe morto. Mas voc no decretara a morte deles. Claro, era com sua aprovao tcita 
que bovinos, ovinos, sunos, caprinos, galinhas e peixes eram assassinados para lhe dar de comer. Mas voc no estava presente no ato, no escolhia a vtima, no 
dava a ordem. No via o sangue. De certa maneira, pensou o homem, vivi sempre assim, protegido das entranhas do mundo. Sem precisar me comprometer. Sem encarar as 
vtimas. Mas agora era preciso escolher.
      Vai essa, doutor?  insistiu o garom.
      No sei. Eu...

Pg 16
 Acho que foi ela que escolheu o senhor. Olha a, ficou paradinha. S faltando dizer Me come.
     O homem desejou que a truta deixasse de encar-lo e voltasse ao carrossel junto com as outras. Ou que pelo menos desviasse o olhar. Mas a truta continuava a 
fit-lo. Ele estava delirando ou aquele olhar era de desafio?
 Vamos  estava dizendo a truta.  Pelo menos uma vez na vida, seja decidido. Me escolha e me condene  morte, ou me deixe viver. A deciso  sua. Eu no decido 
nada. Sou apenas um peixe, com crebro de peixe. No escolhi estar neste tanque. No posso decidir a minha vida, ou a de ningum. Mas voc pode. A minha e a sua. 
Voc  um ser humano, um ente moral, com discernimento e conscincia. At agora foi um protegido, um desobrigado, um isento da vida. Mas chegou a hora de se comprometer. 
Voc tem uma biografia para decidir. A minha. Agora. Depois pode decidir a sua, se gostar da experincia. O que no pode  continuar se escondendo da vida, e....
 Vai essa mesmo, doutor?  quis saber o garom, j com a rede na mo para pegar a truta.
 No  disse o homem.  Mudei de ideia. Vou pedir outra coisa.
     E de volta na mesa, depois de reexaminar o cardpio, perguntou:
      Esses camares esto vivos?
      No, doutor. Os camares esto mortos.
      Pode trazer.

Pg 17
VAMOS OS NOSSOS PS

        O outono  a nica estao civilizada.  A primavera  um descontrole glandular da Natureza.  O inverno  o preo que a gente paga

Pg 19
para ter o outono, e por isso est perdoado. O vero  uma indignidade. Eu deveria ser um par de garras serrilhadas escapulindo pelo cho de mares silenciosos, ou 
pelo menos um falso ingls como o Eliot. Clssicos ao p do fogo, um vago cachorro e sherry seco contra o catarro. Um gentleman no deve suar, meu caro. As frutas 
tm suco, no um ingls. Nas colnias, os nativos suavam por ns, e...  sempre assim. Quando chega o vero comeo a me imaginar em Londres, estocando meus tintos 
para o inverno. Mas  claro que no aguentaria duas semanas como ingls sem comear a maldizer a umidade e a sonhar com o sol.
     Mas no sou uma pessoa tropical. Minha terra preferida  o outono em qualquer lugar. No outono as coisas se abrandam e absorvem a luz em vez de refleti-la. 
 como se a Natureza etc., etc. (O vero no  uma boa estao para literatura descritiva. Me pea o resto da frase no outono.)
     Sempre digo que a praia seria um lugar timo se no fossem a areia, o sol e a gua fria.  s uma frase. Gosto do mar. O diabo  que a gente sempre tem na cabea 
um banho de mar perfeito que nunca se repete. O meu aconteceu em Torres, Rio Grande do Sul, em algum ano da dcada de 50. Sim, crianas, em 50 j existiam Torres, 
o oceano Atlntico e este cronista, todos bem mais jovens. O mar de Torres estava verde como nunca mais esteve. Via-se o fundo?
     Via-se o fundo.
     Vamos os nossos ps, embora a gua estivesse pelo nosso pescoo, e como eram jovens os nossos ps. Havia algas no mar? Iodo, mes-dgua, siris, dejetos, nufragos, 
sereias? No, a gua estava lmpida como nunca mais esteve, Os nicos objetos estranhos no mar eram os nossos ps, e como isso faz tempo. At que horas ficamos na 
gua? Alguns anoiteceram dentro dgua e estariam l at agora se no tivessem que voltar para a cidade, se formar, fazer carreira, casar, envelhecer, essas coisas.
     Como o cronista explica sua averso ao vero depois de tais lembranas?  que eu no gostava do vero. Gostava de ser mais moo.

Pg 21
TEMPERATURA AMBIENTE

        Calor. Muito calor. Deve ser o ar-condicionado. Estes hotis modernos exageram.  O calor me acordou. Isto aqui est um forno.

Pg 23
     Vou levantar e procurar o controle da temperatura. O termostato. Onde ficar o termostato? No tem termostato.  aquecimento central. Vou telefonar para a portaria. 
Dizer que assim no d, pedir para diminurem. Qual ser o nmero? Engraado, o telefone s tem um boto. Sem nmero. Como eu fao pra ligar pra fora? Esses hotis 
modernos... Espera um pouquinho. O que eu estou fazendo num hotel? Fui dormir ontem  noite na minha cama e acordo numa cama de hotel? Ou no foi ontem  noite, 
j se passaram dias e eu  que no me lembro? O que ser que eu andei fazendo? E como vim parar aqui, neste quarto sem nenhuma decorao, sem... Meu Deus, sem janela! 
E sem porta!! Como  que eu entrei aqui? Como  que eu vou sair daqui?! O quarto s tem uma cama e uma mesa de cabeceira com o telefone. E uma televiso. Nem um 
quadro na parede, nem uma paisagem. E este calor! A televiso. Vou ligar a televiso e descobrir ao menos onde eu estou. Pronto. Reprise de Jeannie  um gnio. Onde 
 que se muda o canal? Ah, timo, no tem como mudar de canal. O telefone. Vou apertar o boto do telefone e ver o que acontece. Algum vai ter que atender. Algum 
vai ter que me dar explicaes.
      Al.
 Al? Sim. Olha. Para comear, o calor est terrvel. No d para diminuir o aquecimento no quarto?
      No senhor. Esta  a nossa temperatura ambiente normal.
 Outra coisa: a televiso s pega um canal. Que est dando uma reprise de Jeannie  um gnio.
      Sim senhor. S tem esse canal, e  sempre a mesma reprise.
      Mas... mas... Isto aqui  o inferno!
 No senhor.  o purgatrio. No inferno a reprise de Jeannie  um gnio  dublada em espanhol.

Pg 25
ANCHOVAS NORUEGUESAS

         Bem...
         Qui, Luiz Otvio.
         No estou encontrando a marca de ervilhas que voc pediu.

Pg 27
  uma lata verde, Luiz Otvio. Procura bem que voc acha.
 Lata de ervilha, aqui, s tem... Deixa ver. Pode ser esta? Dabeng?
      Dabeng?!
 Petipo. S consigo entender isso do que est escrito na lata. Petipo Dabeng.
 Luiz Otvio, onde voc est? A  a seo de importados, Luiz Otvio.
      Mas essa Dabeng no  boa?
       muito boa. E muito cara.
      No parece to cara assim...
 Luiz Otvio, essas ervilhas so colhidas uma a uma por virgens no Tibete. So carssimas. Sai da, Luiz Otvio. Procura as ervilhas na seo de enlatados nacionais.
      Epa! Olha o que tem aqui. Anchovas norueguesas. Lembra, bem?
 Lembro, Luiz Otvio. Lembro. Mas sai da seo de importados e compra o que eu pedi.
 Sabe que a latinha de anchovas continua igualzinha  que a gente comprava?
      Que bom. Mas no  mais para o nosso bico.
 Lembra como a gente comia as anchovas com po, e aquele vinho portugus que eu descobri?
 Lembro, Luiz Otvio. Mas isso foi no tempo em que a gente podia.
      Sabe de uma coisa? Vou levar as anchovas.
 No faa isso, Luiz Otvio. E sai da seo de importados imediatamente!
      S uma latinha. Pelos velhos tempos.
 Eu probo voc de trazer qualquer coisa da seo de importados desse supermercado, Luiz Otvio.

Pg 28
      Probe?
 Probo sim senhor. Sou eu que estou pagando por essas compras. Eu que cuido do nosso oramento. Eu que controlo nossos gastos para evitar suprfluos e extravagncias.
 Muito bem. Continue, continue. Diga que voc  que est pagando porque o dinheiro  seu. Porque eu sou um imprestvel. Porque eu estou desempregado. Porque no 
sou nada que voc pensou que eu fosse quando casou comigo, eu com aquela minha pose de gr-fino e de entendido em vinhos. Diga que ns estamos nesta situao por 
culpa da minha pose. Diga.
      Luiz Otvio...
 Olha, tem gente aqui me olhando enviesado. Parece que nunca viram um homem despejando sua amargura num telefone celular, dentro de um supermercado. E na seo 
de importados.  isto mesmo, gente. Vocs esto vendo um fracassado numa crise emocional e conjugal. Estas anchovas norueguesas so um smbolo do meu fracasso. Do 
fracasso de um casamento. Do fracasso de uma vida. Estas aqui, .
      Luiz Otvio, traz as anchovas norueguesas.
      O qu?
      Para de dar vexame e traz essas malditas anchovas norueguesas.
       s para lembrar os velhos tempos, bem.
      Est bem, est bem.
 Vou comprar o po para comer com as anchovas. E procurar um vinho adequado. Algo leve, sem muito tanino e com um bom final.
 Est bem, Luiz Otvio. Depois vem pra casa. Pega as ervilhas nacionais e vem pra casa.
      Certo.
 E esta  a ltima vez que eu peo para voc ir ao supermercado.

Pg 29
A TEORIA DO RAIO

        Seu nome  Jean-Paul Quelquechose e ele  o matre de um hipottico restaurante na Cte SAzur  chamado, alis, LHypothtique.

Pg 31
     Um velho observador do mar e das fortunas humanas, ele achava que as duas coisas se pareciam. Os ricos tambm vinham em ondas como o mar, e mesmo que quebrassem 
na costa como as ondas, atrs viriam outros, e outros e mais outros. Cada onda era diferente mas o mar era sempre o mesmo, assim como cada gerao de ricos era diferente 
mas a riqueza que as impelia para a praia, e para o seu restaurante, era constante e confivel. Podia subir ou descer  como a mar  mas no falhava. Jean-Paul 
j passara por perodos de preamar e baixa-mar das fortunas, j vira um nobre arruinado se matar na sua frente, derrubando um faiso flambado na queda, e uma jovem 
herdeira chorar dentro da bisque com a perspectiva da misria, e uma vez fora obrigado a botar trs magnatas falidos e suas mulheres a limpar peixe na cozinha 
para pagar a conta de um jantar. Mas atrs de cada rico em desgraa vinha um mais rico, onda aps onda. Agora no. Que Jean-Paul se lembre, a coisa nunca esteve 
como agora.
     As ondas no esto vindo, as ondas s esto indo.  como se o mar se retrasse. Como se o mar que ele via atravs dos janeles do seu restaurante se esvaziasse. 
Como se um ralo tivesse sido aberto no fundo do mar. Foi o que Jean-Paul disse para seu entrevistador, que comentara o pouco movimento do restaurante em plena temporada 
de inverno.
     A teoria do ralo.
 S pode ser isso. Para onde foi todo o dinheiro? S pode ter desaparecido por um ralo.
      Os ricos no esto mais vindo?
      Os ricos no so mais ricos.
      No tem vindo ningum?
      Personne.
      Nem os americanos?
      Muito menos os americanos.
      Nem os rabes?
 Poucos rabes. Mas dividem os pratos e no do mais gorjetas.

Pg 32
      Ningum mais tem dinheiro...
       um ralo. S pode ser um ralo.
      Esta crise, ento, no  como as outras, Jean-Paul?
 No . Passei por todas as outras e sei. Esta  diferente. Esta vai ficar na Histria. Se houver Histria depois dela...
 Pelo menos voc ainda tem essa vista bonita do mar da Cte, e agora com bastante tempo para contempl-la.
 No me fale. Quando olho o mar s consigo pensar no que ele tem de sobra e ningum mais tem.
      O qu?
      Liquidez.
      Bom, j vou indo. Obrigado pela...
      Epa, voc no est esquecendo uma coisa?
      O qu?
      Minha gorjeta.
      Mas ns s conversamos, voc no me serviu nada.
      E a filosofia?

Pg 33
PATO DONALD

        Casal preparando-se para sair.  Ela uns 40 e poucos anos, ele 50.  Ele pede:
         Me fecha atrs?
        Ele:

Pg 35
      Ahn?
      O vestido, Srgio. Fecha o vestido.
      Ah.
     Ele tenta fechar o vestido dela atrs, mas no consegue. Em 25 anos de vida conjugal,  a primeira vez que tem dificuldade em fechar o vestido dela atrs.
      O que foi, Srgio?
      Calma, Dulce. Preciso me concentrar.
     Ele finalmente consegue fechar o vestido.
      Pronto. Dever cumprido.
      O que voc tem, Srgio?
      Por qu?
 Parece distrado. E ainda no terminou de se vestir. Ns vamos chegar tarde ao jantar.
     Ele senta-se na cama.
      Dulce, eu vou confessar uma coisa.
     Dulce olha para o marido com surpresa. Uma confisso? Que confisso? Uma amante? Um problema na firma? Estamos arruinados? O qu?
      O qu, Srgio?
      Eu nunca entendi o que o Pato Donald dizia.
     Dulce controla a vontade de bater no marido.
      Que loucura  essa, Srgio?
 Passei toda a minha infncia fingindo que entendia, mas no entendia. Voc entendia?
      Por que isto agora, Srgio? Voc est muito estranho.
      Eu ria, mas no entendia. Era um riso falso.

Pg 36
 Srgio, pelo amor de Deus. Vamos parar com essa loucura e acabar de nos vestir. J estamos atrasados e voc nem...
 Eu no devia ser o nico. Muito mais gente no entendia o Pato Donald. Podamos at nos reunir. Os que no entendiam o que o Pato Donald dizia. Talvez formar uma 
associao...
     Dulce senta-se na cama ao lado do marido. Sente que o que est em jogo  seu casamento. So 25 anos de vida conjugal ameaados por aquela sbita loucura do 
marido. Decide apelar para a razo. Enfrentar a estranheza com uma boa conversa. Nada como uma boa conversa para se encontrar a soluo de qualquer coisa, mesmo 
a insanidade. Ou adi-la.
 Eu compreendo, Srgio.  a idade, no ? Voc no est sabendo lidar com os 50 anos. Parece que existe at um nome para isso, a depresso do meio sculo, alguma 
coisa assim. Para mim tambm no foi fcil passar dos 40. Podemos conversar sobre isso depois. Mas no momento o mais importante  no chegar atrasados no jantar. 
Vamos nos vestir e...
 Eu fico pensando no que o Pato Donald dizia, com aquela sua dico incompreensvel. Em tudo que eu perdi...
     Dulce levanta-se, impaciente.
 Ora faa-me um favor, Srgio! Voc no perdeu nada. O que o Pato Donald teria de importante para dizer? Que valesse a pena? Que fosse fazer alguma diferena na 
sua vida?
 No sei. No sei. Quem sabe eu no seria outro homem, hoje, se entendesse o que o Pato Donald dizia?
     Durante o jantar, Dulce fica cuidando Srgio. V que ele quase no fala com as pessoas ao seu redor.  o estresse, pensa. A crise. A angstia dos 50 anos. Da 
conversa dele com uma mulher sentada ao seu lado ela s capta uma frase solta, dita pela mulher:
      Sabe que eu tambm no?
     Mas a mulher tambm o olha com estranheza. E Srgio retorna ao seu silncio, com o olhar parado.

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     No carro, voltando para casa, Dulce sugere que Srgio procure algum para conversar. Quem sabe o dr. Maurcio, o amigo psiquiatra? Srgio concorda, entusiasmado.
 O dr. Maurcio. Sim, sim. Ele certamente tambm no entendia o que o Pato Donald dizia. Deve conhecer outras pessoas que no entendiam. Podemos comear a associao!
     Dulce suspira. Decide que ter que aprender a conviver com a loucura do marido. Talvez seja passageira e no interfira na vida econmica do casal. Preocupante 
mesmo, pensa ela,  a indita dificuldade dele em fechar seu vestido atrs. Aquilo, sim, poderia afetar a relao.

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ENTERROS

        O enterro, com perdo da indiscrio, ser o seu mesmo?
        Sim. Quero deixar tudo pronto para quando chegar

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a hora. Sou um homem precavido.
     Pois no. Aqui est o nosso catlogo. Como o senhor v, podemos oferecer um enterro Deluxe Classe A, top de linha. Caixo de madeira nobre com revestimento 
interno de cetim e travesseirinho bordado. O preo inclui o antes e o depois do enterro.
     O antes e o depois?
     Sim. Providenciamos os canaps e o vinho e a participao de um quarteto de cordas tocando selees do barroco, durante o velrio. Alm da decorao da capela 
com motivos da vida do morto, e de manobristas e recepcionistas.
     E o depois?
     Temos um servio exclusivo de encomendao da alma que assegura um atendimento VIP no Alm, com garantia de colocao no Cu independentemente da cotao moral 
do morto.
     E funciona?
     At hoje ningum se queixou.
     No sei... Eu queria algo um pouco menos...
     Veja. Nossa linha Deluxe Classe B  quase igual  Classe A, apenas sem os canaps e com gua e refrigerantes em vez de vinho. Tambm no inclui manobristas 
e recepcionistas, e o quarteto de cordas  substitudo por um duo de violino e violoncelo. E no tem travesseirinho.
     E o atendimento especial, no Alm?
     Fazemos a requisio, mas no h garantia de que ser atendida. Depende muito do trnsito, l em cima.
     No tem algo mais barato?
     Sim. Este aqui  o nosso enterro padro, Classe C.  o mais procurado. A madeira do caixo e o revestimento interno so de qualidade inferior, mas perfeitamente 
aceitveis e de durabilidade garantida. No h servio de copa, nem manobristas e recepcionistas, e a decorao se resume num arranjo de flores, mas a msica quem 
faz  um acordeonista com um excelente repertrio sacro.

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     E a recepo, l em cima?
     Por este preo, no podemos prometer tratamento diferenciado.
     Ainda no  bem o que eu queria...
     Sim. Bom. Esta  a nossa linha popular, que chamamos de Bom Despacho. O caixo  de pinho, no h msica e as flores so de plstico.
     E a alma, quando chega no Alm?
     Tem que pegar uma senha como todo mundo.
     Tambm no  isso que eu quero...
     Perdo, cavalheiro. Mas quanto, exatamente, o senhor pode pagar?
     Depende. Qual  o seu enterro mais barato? 
     Tome.
     O que  isso?
     O que o senhor est vendo. Uma p.
     Uma p?
     Ou faa o seu prprio enterro, ou aceite um conselho.
     Qual?
     Morra em outro lugar.

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LNGUA NO OUVIDO

        Chegou o dia da separao, e o problema de sempre: o que  de quem?
         E os CDs?
         Metade para cada um.

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      Como, metade para cada um? Eu quero escolher os meus.
      Est bem, est bem.
     Ela comeou a separar os CDs. Os que ela queria numa pilha, os que podiam ficar com ele em outra.
 Espera l!  gritou ele, no meio da operao.  Os Beatles ficam comigo!
 No sei por qu  reagiu ela.  Botei todos os Luis Miguel na sua pilha.
      E eu l quero o Luis Miguel? Nunca gostei do Luis Miguel.
 Arr! Grande revelao. Ele nunca gostou do Luis Miguel. Quer dizer que tudo aquilo era uma farsa?

***

     O que ela queria dizer com tudo aquilo: os dois danando ao som de um bolero cantado por Luis Miguel. O apartamento na penumbra, iluminado apenas pela vela 
em cima da mesa em que tinham jantado. S os dois. Colados um no outro. E ele (anos atrs, em outra vida) cantando junto com o Luis Miguel no ouvido dela. Ele dizendo 
Voc no adora o Luis Miguel? E ela: Adoro, adoro. E ele: Essa vai ser a nossa msica para sempre E ela: Para sempre, para sempre

***

      Alm do Luis Miguel, o que mais era mentira?
      No mude de assunto. Os dois Beatles so meus.
      Um para cada um.
      Os dois. Na minha pilha. Pode ficar com o Luis Miguel.
 Eu odeio o Luis Miguel! Est me ouvindo? Odeio. Sempre odiei.
      Arr! Ento a fingida era voc!

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 E vou dizer mais. Eu odiava quando voc cantava bolero no meu ouvido. E mais...
      Olha o que voc vai dizer...
      Odiava quando voc enfiava a lngua no meu ouvido. Odiava!
      Ah, ? Ah, ? E aqueles gemidos eram pura encenao?
 Eram. Quer saber? Eram. No sei de onde vocs tiraram que mulher gosta de lngua no ouvido!

***

     Decidiram suspender a partilha dos discos antes de se atracarem e rolarem, rosnando e trocando insultos, pelo carpete. Ele foi at a janela, respirar fundo. 
Ela foi examinar os fundos de armrio para ter certeza de que no estavam esquecendo de nada. Foi quando ela deu com a garrafa de champanhe.
     Trouxe a garrafa para ele ver.
      Lembra?
      Meu Deus. Onde estava isso?
 No fundo de um armrio. Ns tnhamos guardado l para comemorar... O que mesmo?
      Faz tanto tempo...
     Tinham guardado o champanhe para abrir num dia especial, no futuro. Que dia seria esse?
     Nenhum dos dois conseguiu se lembrar. E, mesmo, o champanhe j devia estar choco.

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TODA A VIDA

        Disse o homem: Fiquei velho na poca errada. Toda a minha vida foi assim. Cheguei s diferentes fases da vida quando elas j tinham

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perdido as suas vantagens. Ou antes de adquirirem vantagens novas. Passei minha vida com aquela impresso de quem entrou na festa quando ela j tinha acabado ou 
saiu quando ela ia ficar boa.
Veja voc: a infncia. Houve um tempo em que crianas, assim, da minha classe eram tratadas como prncipes e princesas. Est certo, elas tambm apanhavam muito. 
Mas havia as compensaes. Geralmente uma av morava junto ou morava perto e as consolava com colo e doces. E as mes no trabalhavam fora nem faziam academia ou 
tsao-tse-qualquer coisa. Ficavam em casa, inventando maneiras de estragar os filhos.
Voc alguma vez teve roupa de veludo? Nem eu. Sou da gerao ps-veludo e pr-jeans. s vezes olho fotografias daquelas crianas antigas com roupas ridculas, golas 
rendadas e babados, e me d uma inveja... Aquilo sim era maneira de tratar criana. Acho que a minha gerao deu no que deu porque nunca usou roupa de veludo. Ou 
cacho nos cabelos.
Outra coisa: psicologia. Fui da primeira gerao criada com psicologia. Nada de castigo  conversa. Ele rabiscou toda a parede? Est tentando expressar alguma coisa. 
E usou o batom da me? Ih, cuidado, uma surra agora pode deflagrar um processo de introjeo edipiana e traumatiz-lo para sempre. Tambm fui da primeira gerao 
que, com a inveno da calculadora de bolso, no precisou decorar a tabuada. Resultado: cresci sem a noo de duas coisas importantssimas: pecado e matemtica.
Cheguei tarde  infncia e muito cedo  adolescncia. A revoluo sexual comeou exatamente um dia depois que eu casei com a minha mulher porque era a nica maneira 
de poder dormir com ela. Nos casamos num sbado e a revoluo sexual comeou no domingo. Ainda tentei desfazer o casamento, j que no precisava mais, mas no deu, 
estava feito.
Minha adolescncia foi um martrio. Me lembro dela como uma nica e interminvel tentativa de desengatar sutis. Os sutis eram presos atrs de mil maneiras. Ganchos, 
presilhas, botes, solda. Voc precisava de um curso de engenharia para desengat-los. Uma namorada minha usava um suti com uma fechadura atrs. Com combinao, 
como um cofre, juro. Dezessete para a esquerda, cinco para a direita, rpido que a me vem vindo! Voc, garoto, nem deve saber o que  suti.

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Eu pensava ser um jovem adulto srio, engajado nas melhores causas, talvez at um ativista poltico, um guerrilheiro. Quando cheguei  idade, os jovens adultos 
estavam cuidando das suas carreiras e das suas carteiras de aes. Fui da primeira gerao que quando falava em ir para as montanhas queria dizer para o fim de semana. 
E a ltima que ainda usou a palavra alienao, mas j sem saber bem o que queria dizer.
Tudo bem, pensei. Vou me preparar para a velhice e os seus privilgios, com minha penso e meus netos. Mas a Previdncia est quase quebrando e minha aposentadoria 
 uma piada, e meus netos, quando me olham, parecem estar me medindo para um asilo geritrico. E h meia hora que eu estou aqui chateando voc com toda esta conversa 
e voc ainda no se levantou para me dar o seu lugar.
     E disse o garoto: P, qual , coroa? Esse negcio de dar lugar pra velho j era.
     E suspirou o homem: Eu no disse? Tambm cheguei tarde  velhice.

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SOLIDO

        Finalmente liberadas as gravaes que a Nasa fez das experincias realizadas com o tenente da Marinha John Smith para

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testar o comportamento humano em condies de completo isolamento durante longos perodos de tempo, iguais ao que o homem ter que enfrentar na explorao do espao. 
O tenente Smith foi escolhido pelas suas perfeitas condies fsicas e mentais. Foi colocado dentro de um simulador de voo com comida bastante para dois anos e os 
instrumentos que normalmente levaria numa misso, inclusive um computador. Todos os dias Smith teria que fazer um relatrio verbal para que seu estado fosse avaliado. 
O que segue so trechos das gravaes feitas dos seus relatrios.
     Primeiro dia. Meu nome  John Smith. Estou timo. Passei todo o dia me familiarizando com este meu pequeno lar. J desafiei o computador para uma partida de 
xadrez. Acho que nos daremos muito bem. (Risadas.) S tenho uma queixa: esta comida em bisnagas no se parece nada com a comida de mame... (Risadas.) Dois mais 
dois so quatro. Encerro.
     Uma semana depois. John Smith aqui. Continuo muito bem. Ainda no consegui vencer nenhuma partida de xadrez deste computador. Acho que ele est trapaceando. 
(Risadas.) Trs vezes trs  nove. Encerro.
     Um ms depois. (Risadas.) Meu nome  John maldito Smith. Tudo bem. Um pouco entediado, mas tudo bem. Consegui finalmente ganhar uma do computador, embora ele 
negue. Vou ter que derrot-lo de novo para convencer este cretino. Calculei mal e j comi todas as bisnagas de torta de ma. Agora s tem maldito limo. Dois vezes 
trs so, deixa ver. Seis. Quer dizer... No. Est certo. Seis. Encerro.
     Dois meses depois. Vocs sabem quem eu sou. John qualquer coisa. No aguento mais a arrogncia deste computador. Ele no  humano! Insiste que me deu xeques-mates 
inexistentes e se recusa a admitir que est errado. Tivemos uma briga feia hoje. Dois mais dois so.., sei l. Encerro.
     Quatro meses. Al. Tenho provas irrefutveis de que o computador est tentando boicotar esta misso! Ouvi claramente ele dizer alguma coisa desagradvel sobre 
mame. Canta Strangers in the Night em falsete e no me deixa dormir. No me responsabilizo pelo que possa acontecer. Estou muito bem, lcido e bem-disposto. Com 
licena que esto batendo na porta.
     Sexto ms. Meu nome  Smith. Maggie Smith. Por hoje  s.

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     Oitavo ms. (Risadas.)
     Nono ms. Smith aqui. Aconteceu o inevitvel. Matei o computador. Estvamos com um problema, onde colocar as bisnagas vazias, e ele fez uma sugesto deselegante. 
Agora est morto. No tenho remorsos. Ontem recebi a visita de um vendedor de enciclopdias. No sei como ele conseguiu entrar aqui. Dois mais dois geralmente  
nove. Encerro.
     Dcimo ms. Meu nome  Brown ou Taylor. Um mais um  umum. Dois mais dois, no. Iniciei um projeto importantssimo. Com as bisnagas vazias e partes do computador, 
estou construindo uma mulher.
     Um ano. Redford aqui. Sinto falta de um espelho para poder ver a minha barba, que est bem comprida. A mulher que fiz de bisnagas vazias e partes do falecido 
computador ficou tima mas, infelizmente, nossos gnios no combinavam. Ela foi para a casa de seus pais. Dois mais dois...
     Dcimo quarto ms. Minha barba est tentando boicotar a misso! Faz um estranho barulho eletrnico e vrias vezes j tentou me estrangular. Deve ser comunista. 
Comearam a chegar as enciclopdias que comprei. Tenho jogado xadrez comigo mesmo e ganho sempre
     Dcimo quinto ms. Aqui fala Zaratustra. Ateno. Encontrei pegadas humanas dentro da cabine. Estou investigando. Mandarei um relatrio depois. Duas vezes 
trs  demais. Encerro
     No dia seguinte. Grande notcia. H outro ser humano dentro da cabine! Seu nome  Smith, John Smith, mas como o encontrei numa tera-feira o chamarei de Quinta. 
Ele no fala, mas joga xadrez como um mestre. (Risadas.) Talvez tenha que mat-lo.
     Neste ponto, os cientistas da Nasa acharam melhor abrir a cpsula. Encontraram Smith com as mos em volta do prprio pescoo gritando: Trapaceiro! Trapaceiro!

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O QUE CADA UM TEM POR DENTRO

        Ela tem, delegado, um nariz arrebitado, mas isso no  nada.  Nariz arrebitado a gente resiste.  Mas a ponta do nariz se mexe quando ela fala.

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     Isso quem resiste? Eu no. Nunca pude resistir a mulher que quando fala a ponta do nariz sobe e desce. Muita gente nem nota.  preciso prestar ateno,  preciso 
ser um obsessivo como eu. O nariz mexe milmetros. Para quem no est vidrado, no h movimento algum. s vezes s se nota de determinada posio, quando a mulher 
est de perfil. Voc v a pontinha do nariz se mexendo, meu Deus. Subindo e descendo. No caso dela tambm se via de frente. Uma vez ela reclamou, Voc sempre olha 
para a minha boca quando eu falo. No era a boca, era o nariz. Eu ficava vidrado no nariz. Nunca disse pra ela que era o nariz. Delegado, eu sou louco? Ela ia dizer 
que era mentira, que seu nariz no mexia. Era at capaz de arranjar um jeito de o nariz no mexer mais.
     Mas a culpa, delegado,  da inconstncia humana. Ningum  uma coisa s, ns todos somos muitos. E o pior  que de um lado da gente no se deduz o outro, no 
 mesmo? Voc, o senhor, acreditaria que um homem sensvel como eu, um homem que chora quando o Brasil ganha bronze, delegado, bronze? Que se emocionava com a penugem 
nas coxas dela? Que agora mesmo no pode pensar na ponta do nariz dela se mexendo que fica arrepiado? Que eu seria capaz de atirar um dicionrio na cabea dela? 
E um Aurelio completo, capa dura, no a edio condensada? Mas atirei. Porque ela tambm se revelou. Ela era ela e era outras. A multiplicidade humana,  isso. 
A tragdia  essa. Dois nunca so s dois, so 17 de cada lado. E quando voc pensa que conhece todos, aparece o dcimo oitavo. Como eu podia adivinhar, vendo a 
ponta do narizinho dela subindo e descendo, que um dia ela me faria atirar o Aurelio completo na cabea dela? Capa dura e tudo? Eu, um homem sensvel?
     Eu deveria ter desconfiado que o nariz arrebitado no era tudo. Que ela tinha me enganado com seu jeitinho de falar, com o apelido que me deu, Guinguinha, 
veja o senhor, Guinguinha, que s depois eu descobri era o nome de um cachorro que ela teve quando era pequena e morreu atropelado. E que ela tinha aquelas outras 
por dentro. Tudo bem, eu tambm tenho outros por dentro. Ns j estvamos juntos um tempo quando ela descobriu que eu sabia imitar o Silvio Santos. Sou um bom imitador, 
o meu Romrio tambm  bom, fao um Lima Duarte passvel, mas ningum sabe,  um lado meu que ningum conhece. Ela ficou boba, disse Eu no sabia que voc era artista 
Tambm sou um obsessivo. Reconheo. A obsesso foi a causa de nossa briga final. Tenho outros por dentro que nem eu entendo, minha teoria  que a gente nasce com 
vrias

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possibilidades e, quando uma predomina, as outras ficam l dentro, como alternativas descartadas, definhando em segredo. E, vez que outra, querendo aparecer. Tudo 
bem, viver juntos  ir descobrindo o que cada um tem por dentro, os 17 outros de cada um, e aprendendo a viver com eles. A gente se adapta. Um dos meus 17 pode no 
combinar com um dos 17 dela, ento a gente cuida para eles nunca se encontrarem. A felicidade  sempre uma acomodao. Eu estava disposto a conviver com ela e suas 
17 outras, a desculpar tudo, delegado, porque a ponta do seu nariz mexe quando ela fala.
     Mas a surgiu a dcima oitava ela. Ns estvamos discutindo as minhas obsesses. Ela estava se queixando das minhas obsesses. No sei como, a discusso derivou 
para a semntica, eu disse que obsedante e obcecante eram a mesma coisa, ela disse que no, eu disse que as duas palavras eram quase iguais e ela disse Rar 
depois disse que obcecante era com c depois do b, eu disse que no, que tambm era com s fomos consultar o dicionrio e ela estava certa, e a ela deu outra 
risada ainda mais debochada e eu no me aguentei e o Aurelio voou. Sim, atirei o Aurelio de capa dura na cabea dela. A gente aguenta tudo, no , delegado, menos 
elas quererem saber mais do que a gente. Arrogncia intelectual, no.

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MICROFONE ESCONDIDO

        Leonor achou a ideia pssima, mas Atade insistiu: botas um microfone escondido no elevador do prdio seria muito divertido.

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     No queria ouvir o que os vizinhos diziam, subindo ou descendo pelo elevador. Os vizinhos no interessavam. Divertido mesmo seria ouvir o que os amigos do casal 
diziam, chegando ou saindo do apartamento.
      Vai dar galho, Atade...
      Vai nada.
     E Atade instalou um microfone no elevador.
     O primeiro teste foi quando convidaram o Julio e a Rosa para jantar.
     Atade ouviu Julio dizer para Rosa dentro do elevador, na subida:
      s onze horas a gente d o fora.
 Acho que s onze ainda no serviram o jantar. Se eu conheo a Leonor.
 No importa. s onze nos mandamos. Amanh eu tenho academia.
     E Atade ouviu Julio dizer para Rosa dentro do elevador, na descida:
 Saco, Rosa. Uma hora da manh. Voc no viu eu fazer sinais pra gente ir embora?
 Aquilo era um sinal? Pensei que voc estivesse limpando o ouvido.
     Outro jantar. Aniversrio do Atade. Os dois ltimos casais saem juntos.
     Atade corre para ouvir o que vo dizer no elevador.
      O Atade est meio acabado, t no?
      Acho no. Pra idade dele.
      Tambm, ter que aguentar a Leonor...
     No apartamento, Leonor se revolta.
      Quem disse isso? De quem  a voz?
      Parece a da Soninha  diz Atade.
      Cachorra!
     Outro jantar. Ligam da portaria para anunciar que o sr. Marcos e a dona Lia esto subindo. No elevador, Lia diz:

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      Se a Leonor servir salmo outra vez eu me mato.
     Depois Lia no entende a frieza da Leonor com ela durante todo o jantar. No sabe que Leonor teve que suspender o salmo que serviria. Que substituiu o salmo 
por um resto de pernil que, graas a Deus, ainda tinha na geladeira.
     Descendo no elevador, Lia comenta com Marcos:
 A Leonor enlouqueceu. Voc viu? Serviu pernil com molho remolado pra peixe.
     Leonor anuncia que nunca mais convidar Lia para nada.
     Depois de um jantar para os amigos que ainda restavam, os melhores amigos do casal foram os ltimos a sair. A Marjori e o Ado. Amigos chegadssimos.
     Amigos de muito tempo. Depois das despedidas, depois de fechada a porta do elevador e do elevador comear a descer com Marjori e Ado, Atade hesitou.
     Talvez fosse melhor no ouvir o que os amigos iam dizer a respeito deles e do jantar, no elevador.
      Voc acha?  perguntou Leonor.
 Melhor no. Voc tinha razo. No foi uma boa ideia botar esse microfone.
      Mas agora est posto. Vamos ouvir.
 Leonor... Ns vamos acabar brigando com todos os nossos amigos.
 Eu quero ouvir, Atade. Eu preciso ouvir o que a Marjori e o Ado esto dizendo!
     O que ouviram foi o fim de uma frase, dita pelo Ado.
      ... cada vez mais chato.
      Viu s, Atade?  disse Leonor.   sobre voc.
      Por que eu? Tinha mais gente no jantar!
      Sei no, sei no.
     E nunca saberiam. No dia seguinte Atade tirou o microfone escondido do elevador.

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O VERDADEIRO GEORGE CLOONEY

        Longe de mim querer difamar algum, mas acho que no caso do George Clooney o que est em jogo  a autoestima da nossa espcie,

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os homens que no so George Clooney. Todas as nossas qualidades e todos os nossos atributos, fsicos e intelectuais, desaparecem na comparao com o George Clooney. 
As mulheres no escondem sua adorao pelo George Clooney. O prprio George Clooney nada faz para diminuir a idolatria e nos dar uma chance. Fica cada vez mais adorvel, 
cada vez mais George Clooney. E se aproxima da perfeio.
 bonito.  charmoso.  rico.  bom ator. Faz bons filmes. Est envolvido com as melhores causas. E que dentes! No temos defesa contra esse massacre. S nos resta 
a calnia.
     Os dentes so falsos. Ali onde elas veem pomos da face irresistveis e um queixo decidido, h, obviamente, botox. Ele tem pernas finas e desvio no septo.  
solteiro, portanto, claro, gay. Tem casa num dos lagos italianos, o que j  suspeito, e dizem que anda pelos seus chos de mrmore depois do banho de espuma vestindo 
um longo caft bordado e sendo borrifado com perfumes florais pelo seu amante filipino Tongo, enquanto seu amante italiano, Rocco, prepara a salada de rcula completamente 
nu. George Clooney bate na me todas as quintas-feiras.  extremamente burro. S leu um livro at hoje e no lembra se foi O Pequeno Prncipe ou O Grande Gatsby. 
Nos filmes em que faz personagens mais reflexivos, contratam um dubl para as cenas dele pensando. Foi ele que props a demolio da Torre Eiffel porque j era mais 
que evidente que no encontrariam petrleo no local. E sua sovinice  lendria. Levou nadadeiras quando visitou Veneza, para no gastar com txi.
 notrio, em Hollywood, o mau hlito do George Clooney. Quando ele fala em algum evento pblico, as primeiras trs fileiras do auditrio sempre ficam vazias. Atrizes 
obrigadas a trabalhar com ele tm direito a um adicional por insalubridade, em dobro se houver cenas de beijo. Outra coisa: a asa. No adiantam as imerses em espuma 
na sua banheira em forma de cisne, nem os perfumes florais borrifados, o cheiro persiste. Sabem que George Clooney e suas axilas se aproximam a metros de distncia, 
e muita gente aproveita o aviso para fugir.
     Alm de tudo, tem seborreia e  Republicano.
     Passe adiante.

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SUFL DE QUEIJO

        Ele a recebeu na porta do apartamento.  Ela tirou o casaco.  Ele ficou segurando o casaco dela, esperando. Ela disse:

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      No vou tirar mais nada.
     Mas acrescentou:
      Por enquanto...
     Os dois sorriram. Perfeito, pensou ele. Se algum tivesse escrito aquele comeo, no poderia ser melhor. Restava saber como seria o resto do script.
     ELE  V entrando, v entrando.
     ELA  Que apartamento lindo
     ELE  Modestamente...
     ELA  Voc mesmo decorou?
     ELE  Foi.
     ELA  Lindo.
     ELE  Agora ficou.
     ELA  Como assim?
     ELE  Eu sabia que estava faltando alguma coisa na decorao. Era voc.
     Ela no sorriu. Meu Deus, pensou ele: ela no entendeu. Tentou de novo.
      Estava faltando a sua beleza para completar a decorao.
      Ah. Isso quer dizer que voc quer que eu fique para sempre?
      Para sempre... e mais um pouco.
     Boa, boa, pensou ele. Ela est sorrindo. Ela est gostando. Ela est no papo.

***

      Quer dizer que eu vou conhecer o seu famoso sufl de queijo?
      Espero que ele no decepcione. Sabe como  sufl.
      Me disseram que o seu nunca falha.

Pg 70
      Bom, at hoje ningum se queixou...
     Duplo sentido, mas com classe. O script continuava funcionando.
 Posso lhe oferecer uma panhe de chamtaa? Quer dizer, uma taa de champanhe?
     Calma, pensou ele. No v estragar tudo com seu nervosismo. Sofisticao. Homem do mundo. Cuidado ao abrir o champanhe. Uma rolha ricocheteando pela sala pode 
pr tudo a...
      Esses canaps, foi voc quem fez?
      Foi.
      Mmmmm.
      Obrigado.

***

     Ele se desculpou para ir at a cozinha ver qual era a situao do sufl. Ela perguntou se podia ir junto. No caminho, ele mostrou onde era seu quarto. Mostrou 
sua cama, de casal (ELA: Que prtico). Na cozinha, falando no ouvido dele, ela sugeriu que pulassem o sufl. Ele riu, tentado, mas no concordou. Tinha orgulho 
do seu sufl. Queria saber a opinio dela do seu sufl infalvel. E a vaidade culinria falou, desgraadamente, mais alto. Foi esse o momento em que  pensando no 
acontecido, mais tarde e mais calmo  ele lamentou a falta de um bom roteirista. O sufl ficou pronto, levaram o sufl para a mesa, ela deu a primeira garfada  
e queimou a lngua. Chegou a dar um salto para trs, fazendo Uol! e quase caindo da cadeira.
     Bebeu um longo sorvo de champanhe. Abanou a boca com as mos. E gritou para ele:
      Voc no me avisou que estava quente!
      Desculpe, eu...
      Seu cretino!

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     Epa, pensou ele. Cretino no.
 Quem  que no sabe que sufl  quente? Voc no viu ele sair fumegante do forno?
      Voc podia ter me avisado!
     O jantar terminou ali. Ela levantou-se da mesa, vestiu seu casaco e saiu do apartamento batendo a porta. Ele ficou pensando que ela poderia ter sido mais compreensiva, 
mas que era melhor assim. Com a lngua queimada ela no iria apreciar seu sufl, mesmo.

***

     Roteirista, pensou ele. Decididamente, faltou roteirista.

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AS INFLVEIS

        Como se compra uma mulher inflvel? Foi a pergunta que me fiz um dia, e no soube me responder. Voc entrava num sex shop

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e pedia para ver o que eles tinham?
     (Voc: Mulher inflvel? Balconista: No fundo, entre os arreios e as bolinhas japonesas)
     No, pensei. Sex shops no deviam vender mulheres inflveis, a no ser os mais bem estocados. Talvez se comprasse pelo correio. Pela internet, isso.
     Procurei mulher inflvel no Google. E encontrei! Mulheres feitas de vinil, da cor que se quisesse, em tamanho natural, com algo chamado de Cyber Skin nos orifcios. 
Vinham numa caixa.

***

     Como seria a caixa? Parecida com uma embalagem de pizza, com a mulher dobrada dentro? Viria uma bomba de ar junto ou voc mesmo teria que assoprar para ench-la, 
no primeiro ato de intimidade entre os dois? Voc lhe dando vida com seu sopro, como o Deus da criao. Depois passando a mo pela sua pele de vinil, testando o 
Cyber Skin com o dedo, tomando posse. Elas j viriam da fbrica com nome  Suzy, Carol, Natasha  ou caberia a voc tambm batizar a recm-nascida, ou recm-inflada? 
Clo, pensei. A minha se chamaria Clo. Ou talvez Pleshette.

***

     Decidi que, antes de seguir adiante, deveria consultar algum que tivesse experincia com mulher inflvel. Me indicaram o Fred (o nome dele, claro, no  este), 
que j teve vrias.
 A vantagem da mulher inflvel, Alosio (meu nome, claro, no  este)  disse ele ,  justamente a variedade. Quando voc se cansa de uma, joga fora e compra outra. 
Ou vende a velha e compra uma nova.
      Vende a velha?
 H um grande mercado para mulher inflvel de segunda mo, ou recauchutada.

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     Eu estava entrando num mundo paralelo de cuja existncia nem desconfiava. O prprio Fred me contou que havia uma comunidade de homens com mulheres inflveis 
que se reuniam frequentemente, inclusive para troca de casais. S no faziam muito sexo grupal porque, com o calor da ao, havia o risco de algumas mulheres esvaziarem 
e murcharem, o que estragava o clima.

     ***

     Nem todos compravam mulheres inflveis com a mesma inteno, ainda segundo o Fred. O Tuta, por exemplo (o nome dele, claro, no  este), especificara que queria 
uma inflvel com a cara da sua ex-mulher e com apenas um orifcio: a boca.
      Para o sexo oral, que a mulher dele se negava a fazer?
 No, para tapar com uma rolha. Ele no toca na sua mulher inflvel. Bota ela sentada ao seu lado durante as refeies, no sof quando v televiso, na cama... 
De vez em quando pergunta Voc disse alguma coisa, querida? e depois d uma gargalhada.

***

     Comprei uma mulher inflvel. Confesso. Pedi uma morena com a cara aproximada da Catherine Zeta-Jones, se tivessem, e no pretendo compartilh-la com ningum. 
Tenho a levado a motis, onde o pessoal se surpreende ao me ver chegar sozinho, com um caixa de pizza embaixo de um brao e uma bomba de encher pneu de bicicleta 
do outro. Mas,  claro, no sou eu que estou escrevendo isto.

Pg 77
EM CAFARNAUM

        E aconteceu que chegou a Cafarnaum a notcia de um homem que transformava gua em vinho.  O estranho homem estivera numa festa

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de casamento em Cana, na provncia da Galileia, e ao ser informado de que acabara o vinho, mandara encher seis talhas de pedra com gua, e transformara a gua em 
vinho. E a notcia se espalhara por toda a regio, e chegara a Cafarnaum.
     E aconteceu que um homem entrou na venda de Guizael, em Cafarnaum, e Guizael achou o homem estranho, e deduziu que aquele era o homem que transformara gua 
em vinho, em Cana. E Guizael agradeceu a Deus por ter levado o homem a Cafarnaum, e ofereceu comida ao homem estranho: po, peixe, coalhada e um copo de gua. E 
Guizael piscou um olho para o homem estranho, e disse: podes transformar esta gua no que quiseres, para acompanhar o jantar.
     E o homem sorriu, e tocou a borda do copo com um dedo, e a gua se transformou em vinho. E Guizael foi tomado de grande alegria, e disse: tens um grande poder. 
E o homem disse: ainda no viste nada. E tocou o po com um dedo, e o po se multiplicou, e o balco da venda de Guizael se cobriu de pes. E o homem tocou o peixe, 
e os peixes tambm se multiplicaram. E assim aconteceu com os potes de coalhada. E Guizael exultou.
     E Guizael props um negcio ao homem estranho. Uma parceria na venda. Ele multiplicaria os potes de coalhada, e os pes, e os peixes, e transformaria a gua 
em vinho, e Guizael economizaria na farinha dos pes e no leite da coalhada, e no dependeria mais dos seus fornecedores de peixes e de vinho, O homem s entraria 
com o seu dedo milagroso, e em troca teria direito a vinte por cento do faturamento da venda.
     O homem sorriu e disse que sua misso era outra. Que estava no mundo para multiplicar o nmero de crentes em Deus, e para transformar no gua em vinho mas 
o corao e a mente das pessoas, e que o nico lucro que buscava era a salvao da humanidade. Trinta por cento, disse Guizael. O homem sacudiu a cabea. No se 
interessava pela riqueza, sua glria no seria deste mundo.
     Fifty-fifty, disse Guizael, ou o equivalente em aramaico. E vendo que o homem hesitava, prosseguiu: aquela sua misso no acabaria bem. Mudar o corao e a 
mente das pessoas, o que era aquilo? Ele acabaria preso como agitador, talvez at executado. E sua pregao seria em vo. Seu sacrifcio no mudaria nada. Mas se 
ficasse em Cafarnaum e aceitasse a proposta de Guizael, o homem teria

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uma vida longa e feliz. Cafarnaum no era o mundo, mas era um lugarzinho simptico, timo para se criar os filhos.
     E o homem aceitou a proposta de Guizael para ficar em Cafarnaum. E disse: sabes, claro, que isto vai mudar a histria da humanidade. E disse Guizael: a humanidade 
no merece mesmo. E o homem sorriu, e tocou o copo com seu dedo outra vez, e trocou o vinho tinto em vinho branco, para acompanhar o peixe.

Pg 81
O FILSOFO E SEU CACHORRO

        O filsofo costumava falar com seu cachorro.  Os dois estavam chegando ao fim da vida ao mesmo tempo e a idade os aproximara

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ainda mais. O filsofo no podia mais ler ou escrever, e falar com o cachorro era a nica maneira de desfiar seus pensamentos, pois sua mente continuava ativa. A 
famlia do filsofo no tinha muita pacincia para ouvir suas divagaes, enquanto o velho cachorro no tinha mais nada a fazer seno ficar deitado aos ps do seu 
dono enquanto ele falava, falava, falava. O filsofo sabia que o cachorro provavelmente dormia ao som da sua voz, mas no se importava. Pelo menos sua voz tinha 
um destino, dois ouvidos leais, em vez de se perder no espao vazio da biblioteca.
     Mas um dia aconteceu o seguinte: o cachorro respondeu.
     O filsofo tinha dito:
      Pensando bem, a morte  uma ddiva.
     E o cachorro:
      Desenvolve.
     O filsofo olhou em volta. Quem dissera aquilo? Perguntou para o espao vazio:
      O qu?
      A morte  uma ddiva. Desenvolve a tese.
     No havia dvida, quem estava falando era o cachorro. O filsofo hesitou, limpou a garganta, depois disse:
      Bem, no  exatamente uma tese.  mais um consolo.
      Como assim?
     O cachorro falava sem abrir os olhos.
 Voc j pensou  disse o filsofo  se ns vivssemos para sempre? Estaramos obrigados a entender o Universo. As razes da existncia, o sentido da vida, essas 
coisas. Como so coisas incompreensveis, viveramos com a permanente conscincia da nossa incapacidade, da nossa insuficincia mental. Do nosso fracasso. Seria 
uma angstia eterna.
      E a morte  melhor do que isso?

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 A morte nos exime. Somos visitantes no Universo. Suas grandes questes no nos dizem respeito, pois estamos aqui s de passagem. A finitude  a nossa desculpa 
para no entender, para no precisar entender. A ddiva da morte  nos tornar iguais a vocs.
      Ns quem?
 Os bichos. Vocs tm cosmogonias? Especulaes metafsicas? Algum tipo de inquietao existencial?
      Eu, no. No posso falar pelos outros. Mas vem c...
      O qu?
 No  justamente o fato de vocs serem mortais, finitos e passageiros que d origem a todas as cosmogonias, a toda metafsica? A morte no  a me da filosofia?
 A recusa da morte  a me da filosofia. A ideia de deixar de existir  profundamente repugnante para o nosso amor-prprio. Aceitando a morte como um consolo, como 
um libi, eu tambm estou me livrando desta absurda pretenso do meu ego, que  a de que eu no posso simplesmente acabar. Logo eu, de quem eu gosto tanto. Por isso 
se inventam religies, e mil e uma maneiras da vida continuar, nem que se volte como um cachorro.
      Epa.
 Foi s um exemplo. Mas eu renuncio  filosofia, renuncio a toda especulao sobre o mistrio de ser, e aceito o meu fim. Estou pronto a pensar no Universo e na 
morte como um bicho.
      Mas eu nunca penso no Universo ou na morte.
      Exatamente. Porque voc no sabe que vai morrer.
      Fiquei sabendo agora. Obrigado, viu?
  isso que eu quero. Essa sbia ignorncia, essa burrice caridosa... Podemos at trocar de lugar, se voc concordar. Lhe dou todas as minhas especulaes, minhas 
teses, meu ego e minha angstia, em troca da sua paz.

Pg 85
 Acho que sua famlia no aprovaria. E no sei se eu ficaria bem de cardig. Nisso a neta do filsofo entrou na biblioteca e tentou acord-lo, sacudindo-o e dizendo 
V, v, o lanche, mas no conseguiu, e foi correndo chamar a me.
     O cachorro tambm continuou com os olhos fechados.

Pg 87
ESTRANHANDO O ANDR

        Leila aceitou a carona do Andr. Estava com sono, queria ir para casa e, quando o Andr disse que a festa estava boa mas

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precisava ir embora e perguntou se algum aceitava uma carona, hesitou s por dois segundos.
     Sabia, por experincia prpria, o que significaria ficar sozinha com o Andr. Uma vez tivera que recorrer  fora fsica para cont-lo, e mesmo com o nariz 
sangrando o Andr insistira. P, Leilinha, s um beijinho. Outra vez ela at ameaara pular do carro em movimento se ele no parasse com aquela mo. Mas Leila 
aceitou a carona. Afinal, sabia se defender. Se aprendera alguma coisa nos anos de convivncia com o inconsequente Andr, era resistir aos seus avanos. Resistira 
ao Andr lamuriento. Resistira ao Andr infantil, pedindo como uma criana. Resistira ao Andr cantando boleros no seu ouvido. Resistira ao Andr se fazendo de louco 
apaixonado.
     Dez anos de avanos repelidos. Tinha prtica.

***

     J estavam rodando uns 15 minutos em silncio quando a Leila falou.
      Tou te estranhando, Andr.
      Porqu?
 Estamos neste carro h meia hora e voc ainda no me deu uma cantada.
      Pois .
Pois ?! O que queria dizer Pois ? E aquele tom sombrio?
      Sou eu, ? Eu no sou mais cantvel?
 No. Qui isso. Voc continua linda.  que, sei l. Desisti.
      Ainda bem. Porque voc sabe que era um chato, no sabe?
      Sei, sei.
     Ela examinou seu rosto. Perguntou:
      Voc est com algum problema de sade?
      No, no.

Pg 90
      O que  ento?
       tudo, entende? Tudo. Desisti de tudo.

     ***

     No dava para acreditar. O Andr deprimido. Ela bem que notara que ele no parecia o mesmo, na festa. No repetira as brincadeiras sem graa de sempre.
Ateno pessoal: concurso de peitos  mas s dos homens! No provocara os protestos de sempre agarrando a bunda das mulheres com quem danava e explicando que 
ainda era do tempo do cheek-to-cheek. E agora ali, srio daquele jeito. Grave. No dava para acreditar, o Andr grave.
      O que foi? Uma desiluso amorosa?
      No.
 Eu nunca topei as suas cantadas porque sabia que no era coisa sria. Foi para proteger a nossa amizade.
      Eu sei. A culpa no  sua.
      O que , ento?
 Desencanto. Sabe como ? Comigo mesmo. Com a humanidade em geral. Com tudo.

     ***

     Tinham chegado no edifcio em que morava a Leila.
      Voc quer subir pra conversar?
      No. Obrigado, Leila. No estou a fim.
      S pra tomar alguma coisa. Desabafar.
      No, no. Obrigado. Vou pra casa dormir.

Pg 91
     Era como se ela estivesse falando com outro homem. O Andr em crise existencial ficara o qu? Mais denso. Mais interessante. Leila perguntou:
      E se a gente fosse para um motel?
     Ele sorriu tristemente.
      No, Leila. No precisa.
 Como, No precisa? Eu no estou sendo caridosa. Eu quero dormir com voc.
 No estado em que eu ando, seria um fracasso. Para mim no seria uma transa, seria uma forma de psicoterapia heteroemptica. Voc no merece isso, Leilinha.
     No dava para acreditar, o Andr dizendo psicoterapia heteroemptica. Leila ficou ainda mais excitada. Ordenou:
      Vamos para um motel!

***

     No motel, ela tomou a iniciativa. Aquela no seria uma relao inconsequente. Seria uma relao complicada. Seria uma relao muito, muito complicada. Pensou 
Leila, arrancando as calas do Andr.

Pg 93
TUBARO MECNICO

        Eram trs casais de amigos, todos no lado, digamos, menos ensolarado dos 50 anos. J tinham jantado, j tinham esgotado todos os

Pg 95
assuntos do momento, e estavam entrando nas reminiscncias, na fase do lembra quando? E a Rosane inventou de perguntar se todos se lembravam de como tinha iniciado 
o namoro que resultara no casamento de cada par. Da gnese, da origem, do foi assim que tudo comeou. A primeira voluntria foi a Dolores.
      Devemos nosso casamento a um tubaro.

***

      A um tubaro?!
      No um tubaro de verdade. Um tubaro de cinema.
     E Dolores contou que estava num cinema vendo aquele filme de tubaro do Spielberg com um grupo, sentada entre um primo e a nica pessoa que no conhecia no 
grupo.
      Que vinha a ser adivinhem quem?
     Viriato, o marido da Dolores, levantou o dedo e disse Eu Foi aplaudido por
     toda a mesa.
      A Vivi!
     Dolores continuou:
 Naquela hora em que o tubaro aparece de repente e quase pega o cara, eu levei um susto e me atirei em cima do Vivi. Escondi a cara no peito do Vivi.
 Espera a  interrompeu o Bruno, marido da Rosane.  Por que voc se atirou em cima de um desconhecido e no em cima do primo?
 Na hora, com o susto, no escolhi o lado. Foi uma coisa instintiva, no pensada.
     A mesa se dividiu, metade achando que no tinha sido to instintivo assim, que a Dolores tinha premeditado o bote no Vivi e a histria estava mal contada, e 
metade achando que tudo fora mesmo um acaso.
      E a o Vivi aproveitou e meteu a mo?
 No. Eu pedi desculpas, ns rimos muito, na sada do cinema ficamos conversando e o resultado, trinta anos, trs filhos e dois netos depois, est aqui.

Pg 96
     Engraado, n? Devemos nossa vida a um tubaro mecnico.

***

 Pois ns  disse a Sibelis  devemos nossa vida a um engano.
     Quem mais se surpreendeu com a frase da Sibelis foi o marido dela, o Rubem. Que no disse nada. Sorriu como se tambm estivesse se lembrando do engano. Mas 
no sabia do que a mulher estava falando.
 Foi num bar. Eu estava sozinha e uma amiga minha veio perguntar se eu topava sair com um cara, para acompanhar ela e o namorado dela, e me apontou o cara no outro 
lado do bar. Gostei do jeito dele e topei.
      E o cara era o Rubem.
 No. Era um que estava ao lado do Rubem. Eu tinha gostado do jeito do cara errado. S descobri quando a amiga nos apresentou. O que tinha me agradado era o namorado 
dela. Mas eu no podia voltar atrs e sa com o Rubem para no ser chata.
      E deu tudo certo.
 Deve ter dado. Casamos e estamos casados at hoje. Trinta anos.
      Viu s?  outro caso de acaso. Outro tubaro mecnico.
 Mas  continuou a Sibelis  eu s vezes penso no que teria sido minha vida se eu no tivesse me enganado. Se o namorado da amiga fosse o Rubem e o outro, o que 
eu gostei, fosse o meu par naquela noite.
     E a Sibelis virou-se para o Bruno e perguntou:
      Voc tambm no pensa nisso, Bruno?
      Eu?!
      Voc no lembra? O outro cara era voc.
     Durante longos segundos ningum falou nada na mesa, at o Viriato, s para no deixar o silncio inflar daquele jeito, dizer a nica palavra apropriada para 
a situao:
      Epa.

Pg 97
***

     O Rubem continuava sorrindo. Disse:
 Eu e a Sibelis comentamos isso seguidamente. Como s vezes um detalhe, um engano, um acaso, pode mudar o destino de...
     A Sibelis o interrompeu:
 Voc nunca soube do engano, Rubem. Eu nunca contei. Em trinta anos, eu nunca contei. E voc nem se lembrava que era o Bruno que estava com voc no dia em que nos 
conhecemos. No seja fingido, Rubem.
 Olha  disse o Viriato, levantando-se.  Vocs eu no sei, mas est na minha hora de dormir. Vamos pra casa, Dol.
 Senta a, Vivi  disse a Dolores.  Ns estamos na nossa casa. Os outros  que tm de ir embora.
     Viriato sentou-se. A Rosane estava irritada.
  isso que d, comear a mexer no passado. De quem foi esta ideia, afinal?
     O Bruno comeou a dizer alguma coisa, mas a Rosane no deixou:
      Com voc eu me acerto em casa!
     E a Dolores, tentando salvar o que ainda havia para ser salvo:
      Outro cafezinho, gente?

Pg 99
T

         Voc quer?
      Se voc quiser...
      Como se eu quiser? Voc quer ou no quer?
      Se voc quiser eu quero.

Pg 101
      Se eu no quisesse no teria perguntado.
      Ento voc quer?
      Quero.
      Ento t.
      Como, t?
      T. Est bem. Sim. Vamos.
 T... Que coisa triste. A que ponto chegamos. Francamente: t?
      Pedro Henrique, voc no vai fazer um drama s porque...
 No, no. Tudo bem. Eu acho perfeito. Assim termina um grande amor. No com uma exploso, no com um suspiro. Com um t.
      Pedro Henrique...
  perfeito. Curto, preciso e definitivo. T. Como um ponto final. T,  ponto. Que vida conjugal pode existir depois de um t? Nenhuma. Boa noite.
 Sabe o que que eu acho, Pedro Henrique? Acho que voc tambm no estava a fim e est usando um pretexto para...
 Ah, ento voc no estava a fim? O t, alm de tudo, era mentiroso?
 No desconversa, Pedro Henrique. Voc  que estava louco para ir dormir mas decidiu que, j que fazia tanto tempo, tinha a obrigao de perguntar se eu queria. 
No era vontade, era desencargo de conscincia.
 E j me arrependi. Se era para ouvir um t, melhor no ter perguntado.
      Confesse. Voc no sente mais nada por mim.
      No  verdade.
      No faz tanto tempo assim, voc nem teria perguntado.
 Ah, desculpe a boa educao. Voc preferia que eu atacasse voc sem avisar? Pimba, sem dizer nada?

Pg 102
 Sem dizer nada, no, Pedro Henrique. Dizendo tudo o que voc costumava dizer no meu ouvido, antes do pimba, lembra? Voc nem se lembra.
 Lembro. E lembro de muito mais. Lembro de quando voc  que tomava a iniciativa. Coisa que no acontece desde, sei l. Desde o governo Sarney.
      O Sarney no.
      O Collor ento.
 No tomava a iniciativa para no ser repelida, porque sabia que voc no me amava mais.
 Que injustia. Que injustia! Eu nunca deixei de amar voc. No sou mais o mesmo, reconheo. No digo mais coisas no seu ouvido, O tempo passa, que diabo. Ningum 
 mais o mesmo. Nem o Agnaldo Rayol, que no envelhece, mas aposto que no diz mais o que dizia. Ns todos mudamos com o tempo. Mas isso no quer dizer que eu ame 
voc menos.
      T certo...
      Jurema, voc, pra mim,  uma semideusa!
      Semi Pedro Henrique?!
      Hein?
      Voc disse semideusa.
      Bom...
      Antigamente era uma deusa.
       o tempo, Jurema. Ns todos nos desgastamos um pouco.
      Quer saber de uma coisa, Pedro Henrique? Boa noite.
      T.

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A PAIXO DE JORGE
        
        No  incomum, apaixonar-se pela mulher de um amigo. Acontece de vrias maneiras. O longo convvio com o amigo e a mulher

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pode ser to ntimo e agradvel que s muito tarde voc se d conta de que o que estava havendo entre voc e a mulher do amigo, o tempo todo, era um namoro, que 
evoluiu para o amor. Ou voc pode simplesmente acordar no meio da noite, depois de um sonho revelador, e dizer com espanto: Eu amo a mulher do Nogueira! Pode acontecer 
num acidente, num detalhe do cotidiano, um roar de dedos ou um cruzar de olhares que detona a paixo incontrolvel. Mas o nosso Jorge encontrou um jeito original, 
decididamente incomum, de se apaixonar pela mulher de um amigo. Apaixonou-se pela mulher do Nogueira (digamos que seu nome seja Nogueira) quando foi visit-la na 
maternidade, depois que ela teve o primeiro filho com o Nogueira. A mulher do Nogueira estava amamentando a criana quando o Jorge entrou no quarto. O Jorge apaixonou-se 
pelo conjunto. Perdidamente. At hoje, ele no pode contar sem se emocionar.

***

     O Jorge no sabe explicar o que houve. Antes, mal prestara ateno na mulher do Nogueira. Ela era bonita mas de um jeito artificial, um jeito de boneca. Sempre 
bem-penteada e bem-maquiada, costumava sentar na ponta das cadeiras com as pernas coladas e um p ligeiramente perpendicular ao outro, como se fosse uma caracterstica 
superior da sua tribo. O Jorge s descobrira que ela estava no ltimo estgio da gravidez quando notou um dia, por acaso, que a barriga avantajada a obrigava a sentar-se 
com as pernas um pouco abertas, mas sem perder a linha. Ela falava pouco e certa vez, quando a discusso no grupo era sobre poltica internacional, divertira a todos 
dizendo que no tinha nada contra o Bush, mas ele l e eu aqui. O Jorge conhecia o Nogueira desde a adolescncia e no entendia o que o amigo tinha visto naquela 
boneca decorativa e ftil. Mas, enfim, no era problema dele. E ento entrara no quarto da maternidade e vira a Juliana (digamos que seu nome seja Juliana) amamentando 
seu recm-nascido.

***

     A Juliana sem maquiagem, com o cabelo em desalinho, com aquela calidez meio mida e resplandecente que, segundo o Jorge, as mulheres adquirem

Pg 106
depois do parto, sorrindo para o beb que sugava o seu peito com uma calma e uma sabedoria to antigas que o Jorge quase deixou cair as flores e levou as mos ao 
corao, como no cinema mudo. Sardas! nos disse o Jorge, extasiado. Ela tem sardas! As sardas no rosto limpo da Juliana tinham completado o sortilgio da cena, 
para o Jorge. Nos trs dias que Juliana ficou no hospital, Jorge foi visit-la todas as tardes, e ficava at ser expulso pelas enfermeiras. Para surpresa da Juliana, 
que tambm nunca prestara muita ateno naquele amigo meio esquisito do Nogueira e no entendia aquela sbita devoo.

***

     O problema, para o Jorge, passou a ser o que fazer com sua paixo. No podia declar-la a Juliana. Muito menos confess-la ao Nogueira. E, mesmo, poucas semanas 
depois do parto Juliana voltara a ser o que era, com as sardas escondidas por camadas de maquiagem e um p ligeiramente perpendicular ao outro. A mesma boneca, s 
com seios maiores. Jorge perguntava muito pelo beb mas, fora isso, no tinha muito assunto com a mulher decorativa e ftil do Nogueira. Ao contrrio das tardes 
no hospital, quando lhe contara a sua vida, quando assunto era o que no faltava. Aos poucos, a paixo do Jorge amainara. At que um dia...

***

     Um dia, num dos almoos da turma, ouviu o Nogueira anunciar:
      A Juliana est grvida de novo.
     O corao do nosso Jorge deu um pulo, depois s ficou ronronando de prazer dentro do seu peito como um gato contente. A Juliana teria outro beb. A sua amada 
estaria de volta!

***

     O Nogueira e a Juliana j esto com quatro filhos (o terceiro  at afilhado do Jorge). A cada novo parto o amor de Jorge por Juliana aumentou. E ningum entendeu 
 s ns, que sabamos da sua inslita paixo  o No! que Jorge

Pg 107
deixou escapar, quando, no outro dia, Juliana disse que chegava, que no pretendia ter mais filhos. E por que Jorge em seguida passou a pontificar, indignado, sobre 
o absurdo preconceito dos casais modernos contra famlias grandes como as de antigamente. Oito, doze, dezessete filhos, por que no? Ele era contra o controle de 
natalidade por meios artificiais. Neste ponto, estava com o papa.

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PLESHETTE

        Al. Entre. Tome este martni seco.  Sou famoso pelos meus martnis secos.  Um bom martni seco depende da correta mistura do gim

Pg 111
com o vermute. O meu  sequssimo. Meu segredo  tomar o gim puro s pensando no vermute. Uso sempre um twist de limo siciliano na taa. Existem vrias escolas. 
Alguns preferem uma azeitona, outros uma cebolinha, e alguns degenerados  americanos, claro  uma cereja. Eu uso o limo clssico. Sempre digo que no existe nada 
para comear uma noite, uma conversa, uma amizade como um martni seco. A partir de um martni seco, quem sabe o que pode acontecer?
     Veja o nosso caso. No nos conhecemos, mas j estamos nos brindando com um sequssimo e civilizadssimo martni. Lanamos a noite como um transatlntico, no 
com uma garrafa de champanhe quebrando no casco, mas com o tilintar de dois copos de...
     No. Melhor deixar o papo do martni para depois.
     Abro a porta e digo:
 Al. Entre. Pleshette, no ? Fiquei intrigado com seu nome.  o nome de uma atriz muito bonita, mas voc certamente no a conheceu. No tem idade para isso. O 
que a fez escolher esse nome? Ou  seu nome de verdade? No se preocupe, no vou pedir sua biografia. Sei que vocs, voc, no gostaria disso. Mas achei que seria 
uma maneira de nos conhecermos, de comearmos a conversa. Por que Pleshette? Foi o que me atraiu no seu anncio. E tambm o gostos sofisticados. Esses anncios 
s vezes so muito engraados. Lembro de um que dizia amor sem demagogia. No imagino o que seria o tal amor sem demagogia. Mas seu anncio me intrigou. Uma 
Pleshette, com gostos sofisticados. Sei que vamos nos dar muito bem. Mas sente-se, por favor. Aceita um martni seco?
     No.
     Abro a porta sem dizer nada. Com um sorriso triste,  isto. Sou um homem amargurado, descrente de tudo. Ou de quase tudo. Ainda busco um relacionamento significativo 
que pode comear  por que no?  num encontro como aquele. Ela precisa saber, s pela minha cara, que aquele no ser um programa comum. Que eu no sou apenas um 
cliente a mais. Que podemos terminar a noite abraados, despejando nossos coraes no meu lenol, depois  ou mesmo em vez  do sexo.

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      Pleshette, isto nunca me aconteceu antes.
      O que, estar com uma mulher?
      No. Abrir meu corao deste jeito.
      Eu tambm. Nunca.
      Ser que isto vai virar outra coisa?
      Sim, sim. Ser uma loucura, mas sim!
     E brindaremos nosso novo amor com martnis secos.
     No.
     Abro a porta e digo Pleshette, no ? Olha, esta  a martni vez que fao isto, no sei bem como.. Epa. A campainha da porta.  ela.
 Al. Entre. Aceita um martni seco? Sou famoso pelos meus...
 No, cara. Vamos logo pro quarto que eu no tenho muito tempo.  por aqui?

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O TESTE

        Ele e ela atirados no sof, cada um para um lado.  Ela lendo uma revista, ele lendo um jornal.  Ela se debrua por cima dele, procurando

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alguma coisa na mesinha ao lado do sof, depois enfiando a mo entre as pernas dele e o estofamento. Ele pensa que a inteno dela  outra e se entusiasma.
 Epa. Opa.  por isso que eu gosto dessas revistas femininas. So puro sexo... Cento e dezessete maneiras de atingir o orgasmo usando utenslios domsticos, inclusive 
o seu marido. Chuchu, esse afrodisaco desconhecido. Voc tambm pode ter os seios novos da Xuxa, quando ela no estiver usando... Vocs comeam a ler essas revistas, 
se excitam e...
      Encontrei.
 Claro que encontrou. Voc pensou que ele tivesse se mudado? Continua no...
      O lpis. Eu sabia que ele estava dentro do sof.
      Lpis?
 Pra fazer este teste da revista. Vamos l. Voc chega em casa e diz que precisa fazer uma reavaliao das suas prioridades, recuperar o seu espao pessoal e dar 
um tempo para o casamento, e declara que vai viajar sozinha. Ele a) dir que tudo bem, desde que voc faa um rancho no supermercado antes de ir, b) acusar voc 
de ter um amante e exigir saber quem , c) dar uma risada e dir boa, boa, conta outra ou d) dir que entende voc e apoia sua deciso. Voc no caso, sou 
eu.
      E ele sou eu?
      Ele  voc.
      D.
      O qu?
      D. A resposta dele, que sou eu,  D.
      Voc me entenderia e me apoiaria?
      Sem a menor dvida.
     Ela anota com o lpis, no muito convencida, e continua.

Pg 116
 Ele tem um hbito que voc no suporta, mas nunca mencionou. Um dia, voc resolve falar e pede que ele pare, seno voc enlouquece. Ele a) dir que voc tem vrios 
hbitos que tambm o deixam maluco e s para se voc parar, b) dir que devemos aceitar as pessoas como elas so, com todas as suas imperfeies, e que voc est 
sendo insensvel e intolerante, c) dir que far o possvel para parar, pois a sua aprovao  a coisa que ele mais preza, ou d) negar que tenha o hbito e dir 
que voc s est atrs de um motivo para critic-lo.
      C.
      C?
      Ele disse C.
 Se eu pedisse para voc abandonar um hbito que me incomodasse...
      Eu pararia na hora.
      Mesmo?
      Mesmo.
     Ela anota e recomea a leitura.
      Voc...
 Espera um pouquinho. Esse teste no  pra mim.  pra voc.  para a mulher responder o que espera do marido. Que tipo de homem ela pensa que ele . No final, dependendo 
das respostas, a revista diz Separe-se desse monstro imediatamente! Ningum quer saber as nossas respostas. Desprezam a nossa autoavaliao.
      No  bem assim...
 , sim.  por isso que eu no gosto de revistas femininas. No tm o menor interesse em homem, a no ser como objeto sexual. So feitas por mulheres para mulheres. 
E o que  que mulher mais gosta de ler, ouvir e ver? Outras mulheres. Algum j viu um homem na capa de uma revista feminina? Nunca.  tudo narcisismo. Delas para 
elas. At os testes. Ela atira a revista e o lpis longe.

Pg 117
      Pronto. Acabou o teste.
     Ela o abraa.
      Ficou, bravinho, ficou?
      Sentido.
     Ela o beija. Ele se deixa beijar. Ela o beija com mais ardor. Ele enfia a mo entre as pernas dela. Ela faz Mmmmm.  assim que eu gosto. Ele diz:
      Encontrei.
      O qu?
      O controle remoto.
     E liga a televiso.

Pg 119
A PREGUIA

        Tenho uma simpatia visceral pela preguia.  Aquele bicho que passa a vida pendurado pelo rabo, de cabea para baixo, e se dedica

Pg 121
 contemplao das coisas pelo inverso. H outros animais contemplativos na natureza, mas nenhum com tanta convico da prpria inutilidade. O boi, por exemplo, 
 lento e filosfico, mas h uma certa empfia na sua ponderao. O boi tem o ar de quem est s esperando que lhe peam uma opinio. O boi tem teses sobre a vida, 
 que at hoje ningum se interessou em saber. O hipoptamo  outro falso acomodado. S o fato de ser anfbio denuncia uma inquietao secreta, O hipoptamo tinha 
outros planos. O elefante? Um megalomanaco. Depressivo. No passou da fase anal retentiva, o que se manifesta em excessivos cuidados com a higiene e em certos pudores 
irracionais. Um elefante nunca morre na frente dos outros, e o que  mais ntimo do que a morte? A vida  uma provao para o elefante.
     A preguia no quer nem saber. A preguia  um macaco que deu errado, um equvoco da evoluo, e ela se esfora para no chamar a ateno para o erro. Se me 
descobrirem, me extinguem. Uma vez perguntaram a Darwin sobre a preguia e ele fingiu que procurava um lpis embaixo da mesa. Todo animal tem uma funo no universo. 
Pode ser a mais prosaica, como comer formiga, mas tem. Menos a preguia. A preguia no serve para nada.  uma espectadora do drama da criao. E mesmo como espectadora 
 incompetente, pois v tudo de cabea para baixo. Ao contrrio, O sol no se levanta para a preguia, ele cai do horizonte como um ovo da galinha, O cu  o cho 
e o cho  o cu da preguia. O espantoso  que com tanto sangue lhe subindo  cabea a preguia no tivesse desenvolvido o melhor crebro do mundo animal. H quem 
diga que desenvolveu, que a preguia j pensou em tudo e resolveu que no valia a pena. Com duas semanas de existncia, com o sangue fazendo o crebro crescer duas 
vezes mais depressa do que o de qualquer outra espcie, a preguia j tinha esquematizado toda a progresso da vida na Terra, desde o homem-macaco at Clvis Bornay, 
desde a roda at o foguete e desde o tambor tribal at a ONU. E desistiu, antes de comear. Hoje o sangue lhe sobe  cauda, a preguia no quer nem saber. Alguns 
frutos que estiverem  mo, pensamentos leves... Para a preguia nenhuma crise  novidade: o mundo est de pernas para o ar h muito tempo.

Pg 123
AT A ESQUINA

        Aconteceu mesmo. Um dia ele disse que ia na esquina comprar cigarro e desapareceu.  No  fora de expresso, sentido figurado

Pg 125
ou piada. Ele disse exatamente isto. Vou ali na esquina comprar cigarro... E ficou dez anos desaparecido.
     H algum tempo, reapareceu. Bateu na porta, a mulher foi abrir, e l estava ele.
     Dez anos mais velho, mas ele. Quieto. Sem dizer uma palavra.
     A mulher despejou sua revolta em cima dele. Seu isso! Seu aquilo! Ento voc diz que vai na esquina comprar cigarro e desaparece? Me abandona, abandona as crianas, 
fica dez anos sem dar notcia e ainda tem o desplante, a cara de pau, o acinte, a coragem de reaparecer deste jeito? Pois voc vai me pagar. Fique sabendo que voc 
vai ouvir poucas e boas. Essa eu no vou lhe perdoar nunca. Est ouvindo? Nunca. Entre, mas prepare-se para...
     Nisso o homem deu um tapa na testa, disse:
      Ih, esqueci os fsforos.
     E desapareceu de novo.

Pg 127
TUDO SOBRE SANDRINHA

O desperdcio.  Entende? O desperdcio. Era o que ele dizia depois que a Sandrinha foi embora.  Eu sei tudo sobre a Sandrinha. Conheo

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cada sinal do seu corpo, cada pelo, cada marca. Algum sabia que ela tinha uma cicatriz pequenininha aqui, embaixo do queixo? Pois , no aparecia, mas eu sabia.
Ela tinha uma pintinha numa dobrinha entre a ndega e a coxa que, aposto, nem a me conhecia. Nem ginecologista, ningum. E o dedinho do p virado para dentro, 
quase embaixo do outro? Era uma deformao, ningum desconfiava. E eu sabia. E agora, o que que eu fao com tudo que sei da Sandrinha?

***

     Contou que passava horas olhando a Sandrinha dormir. Barriga para baixo, cara enterrada no travesseiro, a boca s vezes aberta. Mas no roncava. s vezes ria. 
Um dia ela riu, acordou, me viu olhando para ela e disse: Voc, hein?, depois dormiu de novo. Acho que, no sonho, eu tinha feito ela rir.
Depois ela no se lembrava do sonho, disse que eu tinha inventado. O que que eu fao com isto? De que me adianta saber como a Sandrinha raspava a manteiga, cantava 
uma msica no chuveiro que ela jurava que existia, Olar-olar, tou de bronca com voc, que ningum nunca tinha ouvido? E fechava um olho sempre que no gostava 
de alguma coisa, de uma sobremesa ou de uma opinio?

***

     Ele podia escrever um livro, Tudo sobre Sandrinha. Mas quem ia comprar? No seria sobre ningum importante. No seria a biografia, com revelaes surpreendentes, 
de uma figura histrica ou controvertida, s tudo o que ele sabia sobre uma moa chamada Sandrinha, que o deixara. O produto de anos de observao. Sandrinha na 
cama, Sandrinha no banheiro, Sandrinha na cozinha, Sandrinha correndo do seu jeito particular. Nenhum interesse para a posteridade. Dez anos de estudos postos fora.

***

Estudei a Sandrinha em todas as situaes, em todos os ambientes, em todos os elementos possveis. Sandrinha na praia. Sandrinha enrolada num cobertor,

Pg 130
comendo iogurte com fruta e vendo televiso. Sandrinha suada, Sandrinha arrepiada. O estranho efeito de relmpagos e trovoadas nos cabelinhos da nuca de Sandrinha. 
Querem os cheiros da Sandrinha? Tenho todos catalogados na memria. Sandrinha gripada. Sandrinha distrada. Sandrinha contrariada, eufrica, rabugenta, com clica 
e sem clica, Sandrinha roendo unha ou discutindo o Kubrick. No havia nada sobre a Sandrinha que eu no sabia. Toda esta erudio sem serventia.

***

O desperdcio. No posso oferecer tudo o que sei sobre a Sandrinha para um inimigo. Seus momentos de maior vulnerabilidade, ouvindo o Chico ou errando o sufl. 
A Sandrinha, que eu saiba, no tem inimigos. Certamente nenhuma potncia estrangeira. No posso oferecer meus conhecimentos da Sandrinha para a Cincia. Se ela ainda 
fosse um fssil que eu desenterrei e passei dez anos examinando e cujas caractersticas revolucionariam todas as teorias estabelecidas sobre o desenvolvimento humano. 
Se a sua maneira de raspar a manteiga fosse espantar o mundo... Mas no. Inventei uma cincia esotrica, de um praticante e de um interessado s. No posso dar cursos, 
publicar teses, formar discpulos. Participar de congressos sobre a Sandrinha. Sou doutor em nada. Doutor em saudade. Entende? Desperdicei dez anos numa especializao 
intil.

***

     No adianta tentar consol-lo. Convenc-lo a esquecer a Sandrinha, se dedicar a outras. Ele diz que no est preparado para outras. Toda a sua formao  em 
Sandrinha.

***

     Com outra  diz ele  se sentiria como essas pessoas com diploma em fsica nuclear ou engenharia eletrnica que acabam trabalhando de garom.

Pg 131
ESTOU NUMA ILHA DESERTA

        Existem vrias histrias de garrafas lanadas ao mar com um bilhete dentro.  Eu mesmo certa vez coloquei um bilhete dentro de

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uma garrafa e larguei no mar. At hoje no sei se o bilhete estava premiado ou no. H o caso do nufrago que usou seu ltimo toco de lpis para escrever um pedido 
de socorro no seu ltimo pedao de papel e o jogou no mar dentro da sua ltima garrafa vazia. A garrafa, levada pela correnteza, desapareceu no horizonte. Um ms 
depois voltou com o mesmo bilhete dentro, com vrias correes de gramtica. Ficou famoso o caso do navegador portugus que mandava telegramas dentro de vidrinhos 
de remdios, para chegar mais rpido. E do outro, brasileiro, que escreveu um bilhete pedindo socorro, rasgou o bilhete em vrios pedacinhos, colocou cada pedacinho 
dentro de uma garrafa e mandou cada garrafa numa direo para aumentar suas chances de ser salvo. E do outro que usou uma garrafa de vinho para mandar um bilhete 
e uma meia garrafa para mandar um P.S. E o nufrago prolixo que s mandava garrafo?

***

     A melhor histria de garrafas e bilhetes que conheo  a de um anncio, acho que do usque Chivas Regal. Um cartum mostra algum na praia lendo um bilhete retirado 
de uma garrafa trazida pelas ondas. O bilhete diz:
Estou numa ilha deserta, s eu e oitenta caixas de Chivas Regal que sobraram do naufrgio. Por favor, no mande ajuda.
     Voc pode imaginar variaes para esta histria. Garrafas de champanhe comeam a dar na praia, em sucesso. Cada uma com um bilhete dentro. Os primeiros bilhetes 
dizem:
Estou numa ilha deserta com uma palmeira e cinco caixas de champanhe.
     Acendi uma fogueira para poderem me localizar. Por favor mandem ajuda.
     O 13 bilhete diz:
Estou numa ilha deserta com duas palmeiras e quatro caixas de champanhe.
     Acendi uma fogueira para poderem me localizar. Por favor, mandem ajuda.
     O 24 bilhete diz:
Estou numa palmeira deserta com duas ilhas, trs caixas de champanhe e a Demi Moore. Acendi uma ajuda para poderem me localizar. Por favor mandem fogueira.

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     Dias depois:
Estou numa fogueira com duas Demi Moores, quatro palmeiras e duas caixas de champanhe para poderem me ajudar. Acendi um favor, mandem uma ilha.
     Depois:
Estou numa Memi Doore com dois favores, uma caixa de champanhe, uma ilha, um deserto, 17 palmeiras e um elefante. Avistei um navio no horizonte e apaguei a fogueira 
depressa.
     Finalmente:
Estou numa ilha com 17 Medi Roomes, 15 elefantes, 10 palmeiras, oito favores desertos, ajudas acessas e seis fogueiras. Mandem cinco caixas de champanhe.

***

     Ou ento: chega uma garrafa na praia com um bilhete que diz:
Estou numa ilha com a Sharon Stone e um orangotango que no apenas no deixa eu me aproximar dela como d sinais de que vai quer-la como sua fmea, com exclusividade. 
Por favor, faam uma destas quatro coisas:
     a) mandem uma arma
     b) mandem uma orangotanga
     c) mandem a Demi Moore
     d) se nada mais der certo, mandem uma filmadora.

Pg 135
A MULHER DO VIZINHO

        Srgio abriu a porta e era a mulher do vizinho.  A fantstica mulher do vizinho.  A fantstica mulher do vizinho dizendo Oi. A fantstica

Pg 137
mulher do vizinho perguntando, depois do Oi, se podia pegar uma toalha que tinha voado da sacada deles  Sabe, o vento  para a sacada dele.
 Entre, entre  disse o Srgio, checando, rapidamente, com a mo, se sua braguilha no estava aberta. Morava sozinho, s vezes se descuidava destas coisas.
     Ela comeou a entrar mas parou. Ficou como que paralisada, s os olhos se mexendo. Os grandes olhos verdes e arregalados indo de um lado para o outro.
      Ih  disse a mulher do vizinho.  Surtei.
 Que foi?  perguntou Srgio, j pensando em como socorr-la (Vamos ter que desamarrar esse busti), j pensando em ambulncia, hospital, confuso, mal-entendido 
com o vizinho...
     Mas ela explicou:
 O seu apartamento  exatamente o oposto do nosso. Preciso me acostumar...
     Ela entrou devagarinho. Como se, alm de ser o avesso do seu, o apartamento de Srgio pudesse conter outras surpresas. O cho podia estar no teto e o teto no 
cho.
 Que coisa!  disse a mulher do vizinho, passando por Srgio e parando no meio da sala.
     Exatamente o que Srgio tinha pensado ao ver que sobrava um pouco de ndega onde acabava o shortinho da mulher do vizinho. No caso, que coisas!
      Voc quer sentar?
      Como?
      At se orientar...
     Ela sentou-se, ainda maravilhada.
      Nossa televiso tambm fica ali, s que ao contrrio!

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     Ele tentou acalm-la.
      Voc quer um copo dgua?
      Voc  solteiro?
      Sou.
      Meu marido  casado. Alis, comigo. Viu s?
      O qu?
       tudo ao contrrio!
      . Eu...
      Palmeiras ou Corinthians?
      Corinthians.
      Ele  Palmeiras!
      Puxa.
      Destro ou canhoto?
      Destro.
      Meu marido  canhoto!
      E voc?
      Eu o qu?
      Palmeiras ou Corinthians? Destra ou canhota?
     Ela tinha se levantado e estava andando pela sala.
     Cuidadosamente, at se acostumar com tudo ao contrrio. Disse:
      No dou muita importncia para essas coisas.
     Foi nesse momento que Srgio se apaixonou pela mulher do vizinho. Os grandes olhos verdes tinham ajudado, claro. Os nacos de ndega sobrando do shortinho tambm.

Pg 139
As coxas longas, sem dvida. O erre meio carregado (ela dissera Palmeirrras e Corrinthians em alemo) contribura. Mas Srgio se apaixonou pela mulher do vizinho 
quando ela declarou que no dava muita importncia para essas coisas, times de futebol, ser destro ou ser canhoto... Ficou esperando que ela dissesse Isso  coisa 
de homem para se atirar aos seus ps e beij-los, mas ela no disse. Ela conseguiu chegar at a sacada, apesar de desorientada, e apanhar a toalha. Mas quando se 
virou para reentrar na sala, ficou paralisada outra vez. Ficou em pnico.
      Ai meu Deus.
      O que foi?
      A porta da rua. Onde fica a porta da rua?
       aquela ali.
      Ai meu Deus. Eu no consigo me orientar.
 Pense no meu apartamento como o seu apartamento visto no espelho. A esquerda fica na direita e a direita...
 Por favor: esquerda e direita no, seno complica ainda mais!
     Ele foi busc-la. Ele foi salv-la da sua confuso. Ele enlaou sua cintura com um brao, segurou a sua mo e comeou a acompanh-la at a porta, como se danassem 
um minueto. Pensou em dizer que tambm estava desorientado (o amor, o amor) e lev-la para o seu quarto, para a sua cama. Imaginou-se tendo dificuldade para desamarrar 
o busti, os dois chegando  concluso que no apartamento dele o busti deveria ser desamarrado ao contrrio, depois desistindo de desamarrar o busti e se amando. 
O busti arrancado. O shortinho arrancado. E a mulher do vizinho, como se no bastassem o erre um pouco carregado e tudo mais, revelando que no usava calcinha. 
E dizendo que ele era tudo que o vizinho no era. Que ele era o oposto do vizinho em tudo. Em tudo!
     Mas chegaram, no ao orgasmo simultneo (Com ele isto nunca aconteceu, com ele  o contrrio!) mas  porta. Ela agradeceu, se despediu e j ia saindo, levando 
a sua toalha, e todas as esperanas do Srgio, quando se virou, deu outra passada de grandes olhos verdes pelo apartamento, e disse:

Pg 140
      Preciso voltar aqui.
      Para se acostumar  disse Srgio.
        disse ela.
     E sorriu.
     Ainda por cima, ela sorria!

Pg 141
A ESTRATEGISTA

        Bete especializou-se na prospeco de vivos.  Procura convites para enterro de senhoras cujo marido  um dos que convida. E em

Pg 143
que no conste netos. De preferncia, nem filhos. Sinal de que a mulher morreu jovem. Falecida moa, vivo moo. Precisando de consolo imediato. O ideal  quando 
h mais de um convite para o enterro, quando a firma do marido tambm convida. E d a posio do vivo na vida. Nosso gerente, timo. Nosso diretor financeiro, 
melhor ainda. Nosso diretor presidente, perfeito! Um diretor presidente com 40 anos ou menos  ouro puro. Segundo a Bete.
     Bete comercializa sua informao. Tem uma lista de clientes. D instrues sobre a abordagem do vivo, que deve comear no prprio velrio. Recomenda um conjunto 
escuro e sbrio, mas com um decote que mostre o rego dos seios. O rego dos seios  importantssimo. O vivo precisa ter uma amostra do que existe por baixo do terninho 
compungido j no abrao de psames.
      O que que eu digo?
      Chore. Diga Eu no acredito. Diga A nossa Pixuxa.
      Pixuxa?!
      Era o apelido dela. Estava no convite.
      A nossa Pixuxa. Certo.
 E no esquece de beijar perto da boca, como se fosse descuido.
     Bete no cobra muito pelo seu trabalho. Faz mais pelo desafio, pelo prazer de um desfecho feliz, cientificamente preparado. Quando consegue colocar uma das 
suas clientes, sente-se recompensada. No  verdade que tenha informantes nos hospitais de primeira classe da cidade e que muitas vezes, quando a mulher morre, ela 
j tem um dossi pronto sobre o vivo, inclusive com situao financeira atualizada. Trabalha em cima dos convites para enterro, empiricamente, com pouco tempo para 
organizar o ataque. Procura se informar o mximo possvel sobre o vivo, depois telefona para uma interessada e expe a situao.
 O nome  bom. Parece que  advogado. Entre 55 e 60 anos. Aproveitvel. Dois filhos, mas j devem ter sado de casa.
      Entre 55 e 60, sei no...
       pegar ou largar. O enterro  s cinco.

Pg 144
     Bete vai junto aos velrios. Para dar apoio moral, e para o caso de algum ajuste de ltima hora. Como na vez em que, antes de conseguir chegar no vivo, sua 
pupila foi barrada pela me dele, que perguntou:
      Quem  voc?
     A pretendente comeou a gaguejar e Bete imediatamente colocou-se ao seu lado.
 A senhora no se lembra da Zequinha? Uma das melhores amigas da Vivi e do Mom.
     Era tanta a intimidade que a me do vivo, embora nunca soubesse que o apelido do seu filho fosse Mom, recuou e deixou a Zequinha chegar nele, com seu rego. 
Foi um dos triunfos da Bete.
     Naquele mesmo ano, Mom e Zequinha se casaram. Alguns comentavam que tudo comeara no enterro da pobre da Vivi, outros que o caso vinha de longe. Ningum desconfiou 
que fora tudo planejado. Que havia um crebro de estrategista por trs de tudo.
     Bete tem medo das livre-atiradoras, das que invadem o seu territrio sem mtodo, sem classe, enfim, sem a sua orientao. Quando o vivo  uma raridade, uma 
pepita  menos de 40, milionrio, quatro ou cinco empresas participando o infausto evento, sem herdeiros conhecidos, e bonito  Bete faz questo que sua orientada 
chegue cedo no velrio, abrace o prospectado, expresse seu sentimento (A nossa Ju! Eu no acredito!), beije-o demoradamente perto da boca, por descuido, e fique 
ao seu lado at fecharem o caixo, alerta contra outros decotes.
     Enquanto isso, Bete cuida da retaguarda. Observa a aproximao de possveis concorrentes e, quando pode, barra o seu progresso em direo ao vivo. (Por favor, 
vamos deixar o homem em paz) De tanto frequentar velrios, Bete j conhece a concorrncia. Sabe que elas vm dispostas a tudo. Quando o vivo  muito importante 
e forma-se uma multido  sua volta, dificultando o acesso, abrem caminho a cotoveladas. No hesitam nem em ficar de quatro e engatinhar, entre as pernas, at o 
vivo. A Bete compreende. Sabe o valor de um bom vivo em tempos como este.
Estamos numa selva, diz Bete, para encorajar alguma cliente que hesita. E lembra sempre:
      Mostre o rego. O rego  importantssimo.

Pg 145
SUFL DE QUEIJO 2

        Jorge conta a Marta que convidou seu novo chefe para jantar.
         Eu falei do meu sufl de queijo e ele se interessou.

Pg 147
 Voc falou no seu sufl de queijo assim, sem mais nem menos?
 No. No lembro qual era o assunto. Ns estvamos numa reunio e de repente se falou em sufls.
 Que estranho. No  uma firma de corretagem? Vocs falam muito em sufls nas reunies?
 No interessa. O fato  que ele vem jantar aqui. Aceitou na hora.
      Quando?
     Amanh.

***

     Na noite seguinte:
      Voc vai usar esse vestido?
      Por qu?
      Usa aquele teu preto. O decotado.
      , Jorge! Qui isso?
 Voc fica muito bem naquele vestido e eu quero que ele veja como a minha mulher  bonita.
      Voc quer que ele veja os meus peitos,  isso?
 No, Marta.  pra, sei l. Combinar com o jantar. Com as velas, com o sufl...
      Este vestido est bom.
      Marta. Por favor.
      No sei que diferena vo fazer os meus peitos.

***

     Jorge, depois de um suspiro de impacincia:

Pg 148
 Marta, acho que voc no se deu conta da importncia deste jantar. Pra mim. Pra ns. Ele  o novo chefe. Est num perodo de avaliao da equipe. Tem gente que 
vai pra rua. Ele  quem decide. Est entendendo? Eu posso ir pra rua.
      Se ele no gostar do seu sufl?
 No, Marta! Mas ele aceitar vir provar meu sufl  um sinal de que quer me conhecer melhor. Podemos ficar amigos. Este jantar pode decidir a nossa vida, Marta. 
Preciso que voc faa a sua parte.
      Mostrando os peitos...
      E no s isso.

***

      No s isso, Jorge?!
 Marta, chegou a hora de saber o que voc est disposta a fazer por mim. Pela minha carreira. Pelo nosso futuro. Por ns.
      Como assim?
 Voc sabe que eu tenho que ficar na cozinha quando o sufl estiver ficando quase pronto. Os ltimos minutos so cruciais para um sufl de queijo no passar do 
ponto. E voc vai ficar sozinha com ele na sala. Marta...
      Jorge, voc  que est passando do ponto.
 Marta, isto no  hora de pensar em fidelidade, em moral, em mais nada.  hora de pensar no meu emprego e na nossa renda.  hora de voc pensar nas prestaes 
do seu carto de crdito, Marta!
      Mas...
      V botar o vestido decotado!

***

     Chega o novo chefe para jantar.
      Marta, este  o Ciro. Ciro, esta  a Marta, minha mulher.

Pg 149
      evidente a surpresa na cara de Ciro.
      Sua mulher?
      .
      Eu no sabia que voc era casado.
      Sou, sou. E bem casado.
 Prazer  diz Ciro, estendendo uma mo lnguida para Marta apertar. A decepo substituiu a surpresa no seu rosto.
     Mais tarde, na cozinha, onde entrou para buscar o gelo, Marta comenta com Jorge, que acaba de colocar o sufl no forno:
      Acho que ele est a fim  de voc, Jorge.
      Nem brincando, Marta.
 Chegou a hora de saber o que voc est disposto a fazer pela sua carreira. Pelo nosso futuro. Por ns, Jorge.

Pg 151
A REPRESLIA

        A Cleide chegou da rua furiosa.  Atirou as compras do super em cima da mesa da cozinha e declarou:
         O seu Hemnio passou

Pg 153
a mo na minha bunda!
     O Oscar tinha recm se sentado para ver o Jornal Nacional. Disse:
      O qu?
      O seu Hermnio passou a mo na minha bunda.
      Quando? Onde?
      Agora mesmo. No elevador.
      O seu Hermnio?! Do 602? Eu no acredito.
 Ah, no acredita? Pois eu tambm no acreditei. Mas aconteceu.
      Voc tem certeza? No foi um esbarro, um...
 Nada. Passou a mo. Eu carregada de compras, sem poder me defender, e ele zupt. E agora?
     Pois . E agora? O que fazer? Era preciso tomar uma atitude. Mas qual? O seu Hermnio do 602 era um bom vizinho. Todos os vizinhos eram bons. O prdio vivia 
em paz. Fora um pequeno incidente na garagem, uma porta de carro amassada e nunca explicada, e as desconfianas despertadas, e a festinha que um dia passara da conta 
dos gays da cobertura, nada nunca ameaara a paz do prdio. Todos se respeitavam. E agora aquilo.
      Voc no vai tomar uma atitude, Oscar?
      Vou. Claro. Mas espera um pouquinho.
      Como, espera um pouquinho?
 Espera um pouquinho, Cleide! Voc quer que eu bata na porta do 602 e pea satisfaes ao seu Hermnio? Boa noite, e que histria  essa de passar a mo na bunda 
da mulher dos outros? Espera um pouquinho.
      Esperar o qu, Oscar?
      Vamos com calma.
     O seu Hermnio era mais velho do que o Oscar. Era o inquilino mais antigo do prdio. Aposentado, morava com a mulher e um gato. No era de falar muito,

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mas era corts. Segurava a porta do elevador para os outros. Respondia a comentrios sobre o tempo ou o futebol com um Pois  meio areo. Nas reunies de condomnio, 
no dava palpites. O seu Hermnio era a personificao da paz num prdio em que ningum se metia na vida de ningum.
     E a Cleide queria que o Oscar soqueasse o seu Hermnio? Ameaasse contar para a sua mulher, a dona Lurdes? Agisse como um marido ultrajado?
      Voc  um marido ultrajado, Oscar.
      No. Espera um pouquinho.
     A Cleide precisava compreender que havia outras coisas em jogo, alm da sua bunda. Um contexto maior. A questo diplomtica. Uma desavena entre eles e o seu 
Hermnio fatalmente se espalharia e afetaria a harmonia no prdio. A vizinhana nunca mais seria a mesma. E outra coisa que a Cleide precisava entender: aquele negcio 
de marido ultrajado era meio antigo. Estavam no sculo 21. Outra moral. Outras prioridades.
 Quer dizer que passam a mo na bunda da sua mulher e fica por isso mesmo? Voc no faz nada?
      Espera um pouquinho. Vamos raciocinar friamente.
     Decidiram-se por uma represlia branda. Na primeira oportunidade que tivesse, Oscar passaria a mo na bunda da dona Lurdes. O seu Hermnio entenderia o significado 
do gesto. Ficariam quites. Zero a zero, e no se falava mais no assunto. A paz do prdio seria mantida. E dali a dias aconteceu do Oscar e da dona Lurdes subirem 
juntos no elevador. E o Oscar zupt na bunda da dona Lurdes. Que se virou para ele com um sorriso e disse:
 O Hermnio sai para jogar bridge todas as quintas, s oito.
     Iiiiih, pensou o Oscar. A Cleide me mete em cada uma...

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ESCANHOAR-SE OU NO ESCANHOAR-SE

        Um homem fazendo a barba na frente do espelho est num momento crucial da sua existncia.   um momento que se repete

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todas as manhs, to banal que ele mesmo no se d conta do seu significado maior. Mas todas as manhs o homem se depara com uma escolha que pode mudar sua vida. 
Deixo ou no deixo crescer a barba?
     A barba quer existir. Todos os dias ela tenta. Todos os dias aparecem as pontas dos fios que, se o homem deixar, crescero, ocuparo o seu rosto e mudaro seu 
visual e possivelmente sua personalidade e seu destino. E tudo depende da crucial escolha de todas as manhs: rapar ou no rapar? Escanhoar-se ou no escanhoar-se? 
Ser ou no ser um homem com barba? E com que tipo de barba?
     A escolha do homem pode ser apenas experimentar. Ele pensa: no fao a barba por alguns dias, vejo como ela cresce e como  que fica, depois decido que tipo 
de barba eu quero. Posso deix-la crescer desimpedida, sem retoques, ou posso gui-la, aparando aqui, desbastando ali, como um artista redesenhando o prprio rosto. 
 bvio que Deus e a Natureza querem que eu tenha uma barba, seno ela no insistiria tanto em crescer, mas a deciso de como ela vai ser  que tamanho (Robinson 
Cruso ou Lula?), que estilo (renascentista, intelectual desleixado etc.?)  depende unicamente de mim. A gentica, a biologia, o meio ambiente e o saldo bancrio 
determinam o que eu sou, mas da decorao do meu rosto cuido eu.
 comum voc encontrar barbas to estranhas que deixam a dvida: como ser que seu portador se imagina, para ter uma barba assim? Que possvel autoimagem ou critrio 
esttico tem um homem cuja barba se resume num tufo abaixo do lbio inferior? Ou num bigode fino que desce pelos lados da boca em tiras que se reencontram na ponta 
do queixo? Voc pode aceitar uma barba tipo dom Pedro II como apenas uma homenagem patritica, mas aquele seu pacato amigo que um dia aparece com o bigode do chanceler 
Von Bismarck certamente decidiu mostrar ao mundo que no  nada do que parecia ser, escanhoado. Ou era mas no  mais.
     Alguns bigodes hoje so inconcebveis. Depois de Hitier, ningum mais quis ter o bigode do Carlitos. E se voc decidiu ter o bigode do Nietzsche para dar uma 
ideia de vigor fsico e mental, saiba que o projeto levar muitos anos. Quando o bigode finalmente atingir a dimenso desejada para impressionar, estar totalmente 
branco, e a nica impresso que voc dar ser a de um bom velhinho, em vez de um leo da filosofia. Um bigode como o do Nietzsche precisa ser comeado na infncia.

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     Voc est na frente do espelho. Uma manh como qualquer outra. Aparelho de barbear ou barbeador eltrico na mo. E de repente voc decide: vou mudar de cara. 
Est implcito na sua deciso que voc quer ser outro, com outra vida, mas por enquanto s o que voc pensa : j que a barba insiste tanto em crescer, que cresa. 
Que aparea. Dou permisso. Depois escolherei a cara que quero ter. Mas no seu subconsciente voc j est escolhendo. Um cavanhaque. Sim, um cavanhaque. Talvez um 
bigode com as pontas reviradas. Ou ento... Sim, Mefistfeles.  isso. Uma barba indisfaravelmente demonaca.
     Vamos ver que vida vem junto.
      Querido, voc no fez a barba hoje?
      No. Decidi dar uma folga.
      Fica um aspecto to sujo...
     Voc sorri. Ela no sabe o que a espera.

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OS SEIOS DE MARIA ALICE

        O irmo da noiva foi encarregado de fazer o vdeo do casamento e apareceu no altar com um negro grande chamado Rosca para

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segurar as luzes. O irmo e o Rosca passaram todo o tempo circundando o casal e o padre, com o irmo sinalizando onde queria as luzes e o Rosca tirando padrinhos 
e madrinhas do caminho, subindo em nichos do altar e se agarrando em santos para se colocar, e a certa altura da cerimnia batendo no ombro do padre e pedindo Qu 
d licena? porque o padre estava fazendo sombra.

***

     Na fila dos cumprimentos a Maria Alice, com quem o noivo quase se casara, se aproximava, com seus seios portentosos. Mais de uma amiga, depois de beijar a noiva, 
avisou: Viu quem est na fila? e a noiva firme, s pensando Cadela Quando Maria Alice e seu decote chegaram na frente do noivo ele, de olho no decote, perguntou 
Como vo vocs? e depois no pde se corrigir porque a Maria Alice estava abraando-o e beijando-o e desejando toda a felicidade do mundo, viu? De corao. E para 
a noiva: voc tambm, querida.

***

     Na recepo, depois, a me da noiva danou com o noivo, o pai do noivo danou com a noiva, a me do noivo danou com o pai da noiva, a nova mulher do pai da 
noiva danou com o namorado da me do noivo, a terceira mulher do pai do noivo danou com o Rosca e o padrasto da noiva, felizmente, estava com um problema na perna.

     ***

      Voc, quando viu a Maria Alice, no...
      No!
      Jura?
      Juro.
      Porque com todo aquele enchimento...

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      Enchimento? Voc acha?
      Pelo amor de Deus! Silicone!
      Sei no...
     Ele ia dizer que conhecia os seios da Maria Alice pessoalmente, que botava as mos no fogo pelos... Mas ela tinha comeado a chorar.
      Bitutinha! O que  isso?
      No sei...
 Chorando por causa dos seios postios da Maria Alice, Bitutinha?!
       insegurana, entende?

***

     Quarta ou quinta noite da lua de mel. Bom como nunca tinha sido antes, nem no namoro. A janela aberta, um nico grilo prendendo a noite l longe, como um alfinete 
de som, e os dois suados e abraados na cama do hotel-fazenda. To apertado que um parecia querer atravessar o outro, porque no sabiam o que dizer, no sabiam o 
que era aquilo, aquele se gostar tanto. Bom de doer, bom de assustar. E ele pensando: vai dar certo, vai ser sempre assim, ns vamos ser sempre assim, a felicidade 
 esta coisa meio muda e desesperada que a gente no quer que acabe, ela vai ser minha mulher para sempre e vai ser bom, eu no precisava ter me preocupado tanto 
s porque ela pediu para tocarem Feelings no casamento.

***

      S d a Maria Alice!
     No teipe do casamento, era mesmo a Maria Alice, no seu vestido vermelho, quem mais aparecia. Mais, at, do que a noiva. O irmo tentou se explicar:
      O vermelho atrai a cmera,

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     E prometeu um parecer cientfico que comprovava o fenmeno.

***

 Lembra do Rosca pedindo para o padre se afastar porque estava atrapalhando a filmagem?
      Parece que faz tanto tempo, n?
      Bom. Brincando, brincando, l se vo...
     Brincando, brincando, l se tinham ido dois anos. Depois foram mais cinco, depois mais trs...
 Voc se d conta de que ns estamos casados h doze anos? Doze anos j se passaram!
     E ele, distrado:
      Essas coisas, quando comeam, no param.

***

      Como  que voc me chamava?
      Eu?
      . Voc tinha um apelido pra mim. Na cama. Lembra?
      Tem certeza que era eu?
      Burungunga. No, Burungunga no. Tutuzinha? No...
      Pokmon?
 No, nem existia, na poca. Era alguma coisa como... Xurububa.
      Duvido

***

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     E um dia ele leu no jornal que a Maria Alice faria uma palestra sobre Psicologia Motivacional. Tinha fotografia da doutora Maria Alice: culos, papada, busto 
matronal. O tempo, pensou ele. O tempo  isso, o que transforma os seios da Maria Alice em busto matronal. A destruio de imprios e civilizaes  s efeito colateral, 
e no nos diz respeito.

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GRAVANDO

        Algum j deve ter tido a ideia de fazer um filme contando a histria de um personagem atravs de imagens captadas ao longo da

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sua vida, do parto  gravado pelo pai   morte num acidente de trnsito gravado por uma cmera de rua, ou num assalto gravado pelo circuito interno de uma loja. 
Toda uma vida registrada em tape. Cenas da festa do seu primeiro aniversrio. Seus primeiros passos. Suas primeiras palavras (Diz al vov para a cmera, diz!). 
Sua participao numa pea da escola (Eu sou o de barba). Sua formatura, com a imagem balanando porque a me no sabia usar a cmera.
     Cenas de um veraneio com a famlia numa praia do Esprito Santo que inclui a tia Julinha fazendo sua imitao das bailarinas do Tch e todo o mundo comendo 
milho e acabando numa guerra de espigas. A fita com sua declarao de amor eterno para a namorada que ela no pde ouvir porque o som estava ruim e quando ele consertou 
o som o namoro j tinha terminado. Toda uma vida.
     Inclusive o que foi gravado sem ele saber. Sozinho dentro de um elevador, fazendo caretas para o espelho, depois olhando-se de perfil e encolhendo a barriga. 
No almoxarifado da loja em que trabalhou por um perodo, no maior amasso com a dona Solange da contabilidade. Num balco de bar, olhando em volta antes de pegar 
o biscoito que algum do seu lado deixou no pires do cafezinho. Numa loja de moda masculina, experimentando o terno que usaria na entrevista que seu tio Felcio 
arranjou, para ele trabalhar no gabinete de um poltico. Sua pequena dana de satisfao no lado de fora do gabinete do poltico, depois de conseguir o emprego. 
Tudo captado pelas cmeras.
     No tape da festa de despedida gravada por um amigo na vspera da sua viagem a Braslia com o poltico, que se elegeu deputado federal, ele faz um discurso emocionado, 
prometendo que ajudar a representar seu Estado com muito trabalho e muita honestidade, antes de tentar dar um beijo na cmera e cair de cara no cho, completamente 
bbado. H um tape da sua partida para Braslia com cara de ressaca. H tapes dele em trnsito nos corredores do Congresso e atrs do deputado em entrevistas, e 
ao seu lado na solenidade em que o deputado  empossado no cargo de ministro. Como chefe de gabinete do ministro, ele chegou ao pice da sua carreira, ao ponto mais 
alto da sua histria. E est tudo registrado.
     A diferena entre, por exemplo, as imagens do seu parto e as imagens dele recebendo maos de dinheiro de propina, feitas por uma minicmera escondida,

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seria notvel. Com os avanos havidos nas cmeras eletrnicas, que hoje podem ser montadas, literalmente, em qualquer lugar, a qualidade das imagens se aproxima 
da perfeio, mesmo que as cmeras tenham o tamanho de botes de lapela. As cenas finais do nosso filme hipottico seriam de grande nitidez e impacto, mostrando 
o personagem enchendo os bolsos de dinheiro, depois fechando os olhos para uma breve orao agradecida. O final do filme poderia ser nosso personagem morrendo num 
desastre de trnsito, gravado por uma cmera de rua, ou num assalto, gravado pelo circuito interno de uma loja, ou gravando uma entrevista para a TV em que nega 
ter recebido propina, diz que tudo no passa de uma armao e que Deus estava l e pode testemunhar. E entregando-se ao julgamento do tempo, que, no Brasil, como 
se sabe, perdoa tudo.
     O fato  que hoje vivemos sob a fiscalizao de cmeras nos lugares mais inesperados, gravando o que fazemos, e at quem no tem culpa se sente constrangido. 
Voc eu no sei, mas eu no fao mais caretas para o espelho em elevador vazio.

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UMA MULHER FANTSTICA

        Ela perguntou como ele reagiria se um dia uma tia hipottica dela viesse hospedar-se com eles.  Ele respondeu:

Pg 171
 E desde quando a sua tia solteira de Surupinga se chama Hipottica? Eu sei que ela se chama Amanda. Voc vive falando nela.
      Est bem. A tia no  hipottica.  a tia Amanda.
      A visita dela  hipottica.
      Tambm no.
      Eu sou hipottico.
 No. Voc  um homem compreensivo, que receber a tia Amanda como se ela fosse a sua tia tambm. Porque voc sabe como eu gosto dela.
 Voc no gosta da sua tia Amanda. Voc adora a sua tia Amanda. A tia Amanda  seu dolo.
 Eu sempre achei ela um exemplo de mulher moderna, ativa, independente...
      Que nunca saiu de Surupinga.
 Como no? A tia Amanda mora em Surupinga mas conhece o mundo todo! J fez at um curso de respirao csmica na ndia.
      Respirao csmica?
 Voc aprende a respirar no ritmo do Universo, muito mais lento e profundo do que o ritmo da Terra.
      E do que o de Surupinga...
 Ela sempre volta para Surupinga porque cuida dos negcios da famlia. A tia Amanda tambm  uma executiva de sucesso.  uma mulher fantstica.
      E quando seria essa visita hipottica da tia Amanda?
     Ouvem a campainha da porta.
      Deve ser ela agora!
      Espera. E onde a tia Amanda vai dormir?
      Aqui, no sof.

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      No sof? No vai ser desconfortvel, para uma senhora?
      E quem disse que ela  uma senhora?
     Tia Amanda no  uma senhora.  uma moa. Linda. Elegante. Fantstica.
      Titia!
      Celinha! Querida!
      Entre!
      Preciso de um homem para carregar esta mala.
      Por sorte, eu tenho um em casa.

***

     Tia Amanda examina-o dos ps  cabea.
      Mmm. Ento esse  o famoso... como  mesmo o nome?
      Reinaldo.
     Quem diz o nome  a Celinha, porque Reinaldo est paralisado. Fascinado. Embasbacado. Finalmente, consegue falar.
      E essa  a famanda tia Amosa. Ahn, a famosa tia Amanda.
     Tia Amanda olha em volta da sala, antes de dar seu veredicto com um sorriso irnico:
      Acolhedora.
      Voc gosta?
 Um dia vocs lembraro deste perodo em suas vidas e se perguntaro: Como podemos ser felizes com to pouco?  o que os franceses chamam de nostalgie de la 
privation...
      E como vo todos em Surupinga?
 Ningum vai em Surupinga, minha querida. Em Surupinga s se fica.

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      E voc, titia? Arrasando coraes, como sempre?
 Voc sabe o que eu penso dos homens, Celinha. Homem s serve para abrir pote e segurar porta.
     Ela se d conta da presena de Reinaldo e acrescenta:
      Desculpe, Roberto. E para carregar mala.
      E os negcios?
 Cada vez melhores e mais aborrecidos. Eu precisava dar uma sada. Como Paris nesta poca  muito chuvosa e Nova York tem brasileiro demais, decidi vir visitar 
minha sobrinha querida, que no via h tanto tempo.
      E conhecer meu marido.
 Quem? Ah, isso tambm... Mas chega de falar s de mim. Vamos falar de voc. Voc estava com saudade de mim, estava?

***

     Mais tarde, Reinaldo e Celinha no quarto:
      Voc disse que ela era fantstica mas esqueceu um detalhe.
      Qual?
      Ela, alm de fantstica, ... fantstica!
      Vocs conversaram bastante enquanto eu fazia o jantar...
 Conversamos. Combinamos que ela vai me dar aulas de respirao csmica.
     Celinha ficou pensativa, antes de dizer:
      No sei se vai ter tempo...
      Porqu?
      Ela vai embora amanh de manh.
      J? Por qu?

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 Os negcios em Surupinga. Esto exigindo a presena dela.
      Ela lhe disse?
      No. Ela ainda no sabe.
     Celinha chegara  concluso que as pessoas s vezes podem ser fantsticas demais.

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O ANIVERSARIANTE

        Muitas vezes a coisa mais importante para manter um casamento estvel no  a fidelidade, a honestidade ou sequer o amos   o

Pg
raciocnio rpido. Como mostra a histria que segue.
      Feliz aniversrio, doutor Roberto!
 Obrigado, Maura. Obrigado. Pelo menos algum se lembrou. Pelo menos a minha secretria...
      Eu nunca esqueo o seu aniversrio, doutor Roberto.
  verdade. Eu sei. E este ano, voc foi a nica que no esqueceu.
      Mas a dona Vivinha...
 Minha mulher? Foi viajar. Escolheu justamente hoje para ir visitar a me dela e levar as crianas.
      Eu sinto muito, doutor Roberto.
      Pois . Esqueceu.
     Naquela manh, antes de sair de casa, ele ainda dera uma indireta.
      Sabe que eu estou me sentindo timo, para a minha idade?
     A Vivinha nem ouvira. Estava ocupada fazendo sua mala. Depois iria ajudar as crianas a se prepararem para a viagem. Quando ele a beijou na face, disse:
 Olha, tem uma lasanha na geladeira para esta noite.  s esquentar. Nos outros dias voc vai ter que comer fora.  s at domingo.
     Uma lasanha. Seria o seu jantar de aniversrio. Uma lasanha solitria. A triste lasanha de um abandonado. Nem seu Itacir, porteiro do edifcio, se lembrara 
de cumpriment-lo.
      Maura...
      Sim, doutor Roberto.
      Por favor, no interprete mal o que eu vou dizer...
      O que, doutor Roberto?
      Voc... tem algum programa para esta noite?

Pg 178
      No. S ir para casa, jantar e ver A Favorita.
      Sozinha?
      Com a minha me, que mora comigo.
      Voc no tem, assim, um namorado?
      Tinha, doutor Roberto.
     E Maura sorriu antes de continuar:
 Mas ele tambm esquecia muita coisa que no devia esquecer.
 Venha jantar comigo na minha casa, Maura. Uma lasanha. No vai ter ningum l. E eu tenho televiso.
     Maura disse que s precisava avisar sua me. Estava subentendido entre eles que uma lasanha pode ser apenas uma lasanha, mas tambm pode ter decorrncias. Afinal, 
ela estava sem namorado e ele estava se sentindo timo para a sua idade. A lasanha podia muito bem inaugurar uma nova fase no relaciona- mento dos dois, depois de 
todos aqueles anos. Se tudo desse certo.
     Quando ele abriu a porta do apartamento e entrou com a Maura, todas as luzes se acenderam e dezenas de vozes gritaram:
      SURPRESA!
     A Vivinha liderava o coro, rodeada pelos filhos. Atrs deles, parentes, amigos  at a sogra, que viera especialmente para a festa. Vivinha hesitou antes de 
abra-lo, visivelmente intrigada com a presena da Maura. Foi quando entrou o raciocnio rpido. Esforando-se para recuperar o flego e um ritmo cardaco normal, 
Roberto disse:
 Voc no pensou que podia me enganar to facilmente, pensou?
      Voc sabia?!
 O seu Itacir no pode guardar segredo. No se aguentou e me contou de todos os preparativos.
 No!  gritou Vivinha, abraando e beijando o marido e depois sua secretria de tantos anos que, claro, ele fizera muito bem em convidar para a festa.

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      Entre, entre, fique  vontade  disse Vivinha para Maura.
     E Roberto pensou, respirando fundo: amanh vou ter que dar uma boa gorjeta para o seu Itacir confirmar sua inconfidncia.

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LIBERDADES

 livre quem pode fazer o que quiser  dentro das suas limitaes de espao, tempo, energia e recursos.  S se  livre dentro de

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certos limites. Portanto, toda liberdade  condicional.

***

     S  totalmente livre quem pode exercer a sua vontade sem qualquer limitao moral ou material. Isto : o tirano. Assim, a liberdade suprema s existe nas tiranias.

***

     Dizer que a minha liberdade termina onde comea a liberdade do outro  muito bonito. Mas e se a liberdade foi mal distribuda e o meu vizinho tem um latifndio 
de liberdade enquanto a minha  um quintal de liberdade, liberdade mesmo que tadinha? No  feio sugerir um reestudo da diviso.

***

     Cuidado com quem d aos outros toda a liberdade. Geralmente  quem pode tir-la.

***

     H os que passam o dia inteiro livres e chegam em casa se queixando disso. So os motoristas de txi. Toda liberdade  relativa.

***

     Toda liberdade  relativa. Verdade exemplarmente ilustrada por este dilogo entre o preso e o carcereiro.
      Nunca mais vou sair daqui.
      Calma. No desanime.

Pg 184
      No tem jeito. Estou aqui para sempre.
      Vou ver o que posso fazer por voc.
 No adianta. Estou condenado. Desta priso eu no saio. Se esqueceram de mim.
      Eu no esquecerei. Voltarei para visit-lo.
      Promete?  diz o carcereiro.

***

     Quem  livre s vezes no sabe. Quem no  livre sempre sabe. Ou ser o contrrio? A gente v tanta gente inexplicavelmente feliz.

***

     Alguns so obcecados pela liberdade e prisioneiros da sua obsesso.

***

     Os loucos so livres e vivem presos por isso.

***

     Poderia se dizer que livre, livre mesmo,  quem decide de uma hora para outra que naquela noite quer jantar em Paris e pega um avio. Mas mesmo este depende 
de estar com o passaporte em dia e encontrar lugar na primeira classe. E nunca escapar da dura realidade de que s chegar em Paris para o almoo do dia seguinte. 
O planeta tem seus protocolos.

***

     Fala-se em liberdade como se ela fosse um absoluto. Mas dizer eu quero ser livre  o mesmo que dizer eu quero e no dizer o qu. Existe a Liberdade De

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e a Liberdade Para. No  uma questo apenas de preposies e semntica.  a questo do mundo. O liberalismo clssico iconizou a Liberdade Para. Voc  livre se 
tem liberdade para dizer o que pensa e fazer o que quer, para ir e vir e exercer o seu individualismo at o fim, ou at o limite da liberdade do outro. A ideia de 
que a verdadeira liberdade  a Liberdade De  recente. Livre de verdade  quem  livre da fome, da misria, da injustia, da liberdade predatria dos outros. A ideia 
 recente porque antes era inconcebvel.
     Ser livre do despotismo era automaticamente ser livre para o que se quisesse, para a vida e a procura individual do paraso. Foi preciso uma virada no pensamento 
humano para concluir que Liberdade Para e Liberdade De no eram necessariamente a mesma liberdade e outra virada para concluir que eram antagnicas. A ltima virada 
 a deciso de que uma liberdade precisa morrer para que a outra viva. No concorde com ela muito rapidamente.

***

     Enfim, de todos os crimes que se cometem em nome da liberdade, o pior  a retrica.

***

     Mas eu desconfio que a nica pessoa livre, realmente livre, completamente livre,  a que no tem medo do ridculo.

Pg 187
CRER

        O garoto me pediu um cavalo.  Eu perguntei: Um cavalinho de brinquedo? Ele disse: No, um cavalo de verdade.  Eu disse que ia

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ver, mas que seria difcil carregar um cavalo de verdade no meu saco.
     Ele ficou me olhando. Depois disse:
      Voc no  o Papai Noel de verdade, ?
      Claro que sou. Por que voc pergunta?
      Porque no outro xpi tem um Papai Noel igual a voc.
      E voc pediu um cavalo pra ele?
      Pedi. E ele disse que ia me dar.
      Bom, talvez o saco dele seja maior do que o meu.
      Mas o Papai Noel de verdade  ele ou  voc?

***

     O que dizer para o garoto?  que ns temos o poder da ubiquidade, entende? Ubiquidade. A capacidade de estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Onipresena. 
Pergunte a sua me. S existe um Papai Noel, mas ele est por toda parte. Est em todos os shoppings do mundo. Cada Papai Noel  a manifestao de uma mesma e nica 
entidade superior. S muda o nome e o tamanho do saco. Eu sei,  um conceito difcil de entender. Ainda mais na sua idade. H anos, sculos, discute-se a natureza 
desta entidade multipartida. Existiu um Papai Noel histrico, que viveu e morreu, mas seu esprito perdurou, e perdura at hoje, porque a sua essncia transcendia 
a sua materialidade. Sua sobre-existncia supratemporal e a-histrica, como a definiria Kierkegaard, depende de uma predisposio da humanidade para ver na sua figura 
a idealizao de um paradigma infantil de bom provedor, e a eternizao da infncia num pai amvel que nunca morre, e volta, ciclicamente, todos os anos, ano aps 
ano, na mesma data. No resto do ano ele reassume a sua imaterialidade mas mantm-se introjetado nos que acreditam nele, controlando suas aes e pensamentos, que 
sero premiados ou punidos quando da sua rematerializao anual, numa espcie de Juzo Final parcelado. Eu, o Papai Noel do outro shopping e todos os milhares, milhes 
de papais nois que surgem nesta poca do ano somos apenas caras diferentes do mesmo ente reincidente que traz presente ou castigo,

Pg 190
representando uma cosmogonia moral que rege o comportamento humano. H quem diga que esta entidade que recompensa e pune no passa de um mito infantilizante que 
aprisiona a razo numa superstio obscurantista. Que Papai Noel no existe. Que eu sou uma fraude. Que o Papai Noel do outro shopping  uma fraude. Que todos os 
outros papais nois do mundo so impostores, que por trs das suas barbas falsas h apenas pobres coitados tentando faturar alguns trocados sazonais com a crena 
alheia, e enganando criancinhas. No  verdade. Pode puxar a minha barba. Eu existo, eu...

***

     Nisso o garoto fez xixi no meu colo. Foi levado pela me, com pedidos de desculpa. Melhor assim, pensei. Minha explicao s iria assust-lo. E eu s estaria 
tentando convencer a mim mesmo. Sou gordo, tenho uma barba naturalmente branca, sou quase um predestinado para ser Papai Noel de shopping. Mas todos os anos preciso 
combater minhas dvidas. Como em qualquer caso envolvendo crena e f, o pior so as dvidas. Com o xixi eu nem me importo.

***

     Mas veja como crer  importante. Em seguida sentou no meu colo um homem dos seus 40 anos. No queria me pedir nada, s queria colo. Tinha estourado o limite 
do seu carto de crdito nas compras de Natal e precisava que algum o consolasse.

Pg 191
ENTRA GODOT

        Uma estrada rural, num lugar no identificado. O nico cenrio  uma rvore sem folhas. Sentados sob a rvore, dois vagabundos:

Pg 193
     Vladimir e Estragon.
     VLADIMIR  Nada a fazer...
     ESTRAGON  Vamos embora.
     VLADIMIR  Voc esqueceu? Estamos esperando o Godot.
     ESTRAGON  Tem certeza que o lugar  este?
     VLADIMIR  A rvore est aqui. Ele...
     (Entra Godot.)
     GODOT  Al, al, al!
     (Vladimir e Estragon se entreolham, apavorados.)
     VLADIMIR (para Godot)  O q-que voc est fazendo aqui?
     GODOT  Ouvi a minha deixa e entrei.
     ESTRAGON  Que deixa? Voc no tem deixa na pea. Alis, voc no est na pea.
     GODOT  Como no estou na pea? Eu sou o personagem principal!
     VLADIMIR  Quem disse?
     GODOT  V ver o cartaz l fora. Qual  o nome que aparece com mais destaque? Godot.
     ESTRAGON  Mas na pea voc no aparece. Ns passamos o tempo todo esperando voc, mas voc no aparece.
     GODOT  Nem no fim? Numa apoteose?
     VLADIMIR  Nem no fim.
     GODOT  Que diabo de pea  esta? Onde foi que eu me meti?
     VLADIMIR   uma parbola. Uma alegoria. Metfora. Metonmia. Translao. Ns esperamos voc, e voc nunca aparece. Voc pode ou no pode ser Deus. Ns podemos 
ou no podemos representar a condio humana. Nada  muito claro.  o chamado teatro do...

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     GODOT  Absurdo! Como  que eu posso ser Deus? No tenho o fsico para o papel. Se bem que, com a maquiagem e um pouco de enchimento...
     VLADIMIR  Voc no entendeu? Voc no aparece. Deus no aparece. Deus talvez nem exista. A humanidade est sozinha. Eu estou sozinho.
     ESTRAGON  Epa!
     VLADIMIR  Eu estou com esse outro vagabundo, que  pior do que estar sozinho. Depois entram mais dois personagens, que tambm ficam esperando at o fim da 
pea. Mas Deus no vem. No h Deus. O homem no tem salvao. Est condenado ao abandono, a no entender o seu papel e no saber o seu destino. Condenado ao livre-arbtrio.
     GODOT  O livre-arbtrio! Est a! Eu sabia que alguma coisa tinha me feito entrar neste palco. No foi uma deixa, foi o livre-arbtrio. Decidi entrar, contra 
a vontade do autor, e entrei. Se Deus no existe, nada est escrito!
     VLADIMIR  Ou talvez...
     GODOT  O qu?
     VLADIMIR  Talvez voc seja Deus. Muito bem disfarado, mas Deus. Voc chegou. Nossa espera terminou.
     ESTRAGON  Muito bem. S que a espera durou s dois minutos. O que ns vamos fazer pelo resto do tempo?
     GODOT  A gente pode improvisar.
     VLADIMIR  Exato. Livre-arbtrio.

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